Pós-Brexit: O Renascimento do E3 e o Novo Tratado que Reposiciona Reino Unido, Alemanha e França no Centro da Segurança Europeia

Dois homens de terno trocando pastas em cerimônia formal, com bandeiras da Alemanha e do Reino Unido ao fundo.
Chanceler alemão Friedrich Merz e o Primeiro-Ministro britânico Keir Starmer durante a assinatura do Tratado de Amizade Reino Unido–Alemanha, em evento oficial.; chathamhouse

Em um cenário de crescente instabilidade geopolítica, a recente visita do chanceler alemão Friedrich Merz ao Reino Unido, apenas uma semana após a do presidente francês Emmanuel Macron, simboliza o retorno do formato E3 — Reino Unido, Alemanha e França — como força motriz da segurança europeia. Este movimento estratégico visa fortalecer a autonomia estratégica da Europa diante de ameaças externas e incertezas transatlânticas.

O Contexto do Tratado: Brexit e o Declínio Temporário da Relação Bilateral Reino Unido–Alemanha

Antes do Brexit, a Alemanha conduzia sua relação com o Reino Unido predominantemente por meio da União Europeia, com exceção das políticas externa e de segurança. A saída do Reino Unido da UE em 2020 resultou em um declínio significativo nos vínculos comerciais e políticos bilaterais. Dados recentes indicam que o Reino Unido, que em 2016 era o terceiro maior parceiro comercial da Alemanha, caiu para a nona posição em 2024. Além disso, intercâmbios culturais, como programas escolares, sofreram quedas expressivas — mais de 80% desde a saída britânica da UE.

Essa situação criou uma lacuna que tanto Berlim quanto Londres passaram a buscar preencher por meio de novos acordos bilaterais, com o intuito de restabelecer a cooperação estratégica e preservar interesses comuns em um contexto global cada vez mais instável.

O Tratado de Amizade Reino Unido–Alemanha: Um Marco para a Cooperação Bilateral

Assinado em Londres durante a visita de Friedrich Merz, o Tratado de Amizade Reino Unido–Alemanha representa uma atualização significativa da relação bilateral, com um claro foco em políticas de defesa, segurança e cooperação externa. O acordo traz uma estrutura política que prevê coordenação mais estreita, incluindo cúpulas regulares a cada dois anos e seis pilares essenciais de cooperação: diplomacia em questões geopolíticas amplas; defesa e segurança; segurança interna e combate à migração ilegal; laços econômicos e cooperação científica; intercâmbios culturais; e políticas conjuntas em energia e clima.

Destaque importante é o alinhamento do tratado com as políticas da União Europeia, evitando conflitos e assegurando que a parceria bilateral complemente o relacionamento mais amplo entre o Reino Unido e a UE. Isso foi possível, em parte, graças a iniciativas recentes como o Acordo de Windsor, que minimizou tensões sobre a Irlanda do Norte, e o “reset” nas relações entre a UE e o Reino Unido.

Esse movimento é parte de um quadro mais amplo de parcerias estratégicas, como ilustram os acordos recentes entre [França e Reino Unido que formalizam cooperação nuclear para fortalecer a autonomia estratégica europeia] e a aliança renovada entre [Reino Unido e França para “salvar a Europa”], ambos focados em ampliar a capacidade europeia de agir com maior independência no cenário global.

A Dimensão de Defesa: Avanços Concretos e Estratégicos

O setor de defesa é o coração do tratado, expandindo o acordo Trinity House firmado no ano anterior entre Alemanha e Reino Unido. Ele estabelece cooperação estruturada em projetos industriais militares, desenvolvimento de capacidades de ataque de precisão, coordenação em exportação de armamentos, bem como ações conjuntas na defesa das fronteiras da OTAN no flanco leste e no Mar do Norte. Um diferencial importante é a inclusão de uma cláusula bilateral de defesa mútua, que se soma aos compromissos já assumidos no âmbito da OTAN.

Este foco robusto em defesa mostra a clara intenção dos países de solidificar sua parceria estratégica, respondendo a ameaças crescentes, como o conflito na Ucrânia e a instabilidade global.

O Retorno do E3: Uma Nova Centralidade na Segurança Europeia

O aspecto mais inovador do tratado é a explícita menção à intensificação da cooperação trilateral entre Reino Unido, Alemanha e França, reforçando o formato E3. Essa configuração, que já existia antes do Brexit, é agora reafirmada e ampliada, conectando os tratados bilaterais preexistentes — o Lancaster House entre Reino Unido e França, e os tratados Elysée e Aachen entre França e Alemanha — em uma rede estratégica integrada.

A retomada do E3 acontece em meio a um contexto de turbulência na aliança transatlântica, sobretudo em razão das mudanças de postura dos Estados Unidos sob a administração Trump e suas consequências para a Europa. O E3 oferece um espaço de diálogo e coordenação mais flexível e direto entre as maiores potências militares europeias, com papel de destaque em temas como o conflito no Oriente Médio, a guerra entre Irã e Israel, e a resposta europeia à agressão russa na Ucrânia.

O Papel do E3 no Contexto Geopolítico Atual e Futuro

Além do diálogo político regular, o E3 expandiu sua atuação para o formato Weimar+, incluindo Polônia, Itália, UE e ocasionalmente OTAN, fortalecendo o suporte conjunto à Ucrânia. O Reino Unido e a França lideram a “coalizão dos dispostos” para um possível cessar-fogo no conflito ucraniano, enquanto Alemanha e Reino Unido co-lideram o formato Ramstein, responsável pela coordenação da entrega de armas ao país.

Essa multiplicidade de iniciativas evidencia a importância do E3 como um hub central, capaz de articular esforços em múltiplos níveis, entre instituições europeias, alianças atlânticas e grupos multilaterais mais ágeis.

Desafios e Limitações do Formato E3

Apesar de suas vantagens, o E3 enfrenta desafios significativos. Sua flexibilidade, que é uma de suas maiores forças, também pode ser uma fraqueza, dada a necessidade de ampliar a cooperação para incluir outros parceiros europeus importantes, como a Polônia e outros membros da OTAN e da UE. O E3, por si só, não é capaz de preencher totalmente os vazios deixados pelo Brexit entre a UE e a OTAN, exigindo esforços contínuos para integrar essas dinâmicas multilaterais.

Conclusão

O novo tratado Reino Unido–Alemanha e a revitalização do formato E3 marcam um importante capítulo na política europeia pós-Brexit. Eles simbolizam a vontade das três maiores potências europeias de superar divisões recentes e unir forças para enfrentar ameaças comuns, enquanto adaptam a arquitetura de segurança europeia a um mundo em rápida mudança.

Este movimento reafirma que, mesmo após rupturas políticas significativas, a segurança e a estabilidade europeias ainda dependem de uma cooperação pragmática, robusta e flexível entre os principais atores do continente, destacando o E3 como um pilar estratégico fundamental no coração da Europa.

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