
Em 19–20 de julho de 2025, os presidentes Abdelmadjid Tebboune (Argélia) e Emmerson Mnangagwa (Zimbábue) formalizaram um pacto de cooperação durante visita oficial a Argel. Mais do que um simples protocolo, o acordo busca institucionalizar uma nova fase de solidariedade africana, orientada pela integração econômica, diplomática e de segurança entre duas nações históricas que compartilham o objetivo de reduzir dependências externas e fortalecer o papel do Sul Global em fóruns internacionais.
Contexto Histórico e Político
A Argélia, desde a independência em 1962, tem sido referência no pan-africanismo, mediando conflitos e defendendo a autodeterminação dos povos africanos. O Zimbábue, após décadas de sanções impostas por EUA e UE por alegações de violações de direitos humanos, busca reintegração diplomática e recuperação de sua economia, fortemente abalada por crises políticas e inflação alta (mais de 200% ao ano em 2020–21). A aproximação bilateral intensificou-se com visitas mútuas e participação conjunta em fóruns como o Movimento dos Não Alinhados e a União Africana.
Essa cooperação não é recente: desde 2018, Argélia e Zimbábue mantêm programas conjuntos de formação técnica em agricultura, com bolsas de estudo para engenheiros agrícolas zimbabuanos em universidades argelinas. Além disso, em 2023, assinaram acordos bilaterais nas áreas de ciência, tecnologia, turismo e educação, incluindo intercâmbios acadêmicos e colaboração entre universidades nacionais.
Conteúdo do Pacto
O tratado, celebrado na IV Sessão da Comissão Mista Permanente de Cooperação (JPCC), foi estruturado em três pilares principais:
- Integração Econômica:
-
- Estabelecimento do Conselho Empresarial Argélia–Zimbábue, visando facilitar investimentos e exportações conjuntas, especialmente de commodities como lítio, nióquel e tabaco, exploradas em acordos trilaterais de infra‑estrutura financiados por um fundo bilateral criado em 2023.
- Projetos de energia renovável no Zimbábue: construção de usinas solares e modernização das redes elétricas, alinhados ao MOU de cooperação energética de 2023.
- Preferências alfandegárias para reduzir tarifas e agilizar circulação de bens dentro da Área Continental Africana de Livre Comércio (AfCFTA).
- Articulação Política:
- Criação do Conselho Consultivo Sul‑Sul, com representantes ministeriais e parlamentares para alinhar posições em organismos como BRICS+, Organização das Nações Unidas (ONU) e União Africana (UA).
- Intercâmbio de missões diplomáticas e programas de capacitação para funcionários dos dois governos.
- Segurança e Defesa:
- Cooperação em treinamento militar e compartilhamento de tecnologias de defesa, baseados em doutrinas de resistência africana à ingerência externa.
- Realização de exercícios conjuntos para aprimorar a segurança de fronteiras e o combate ao crime transnacional.
Impacto Geopolítico
Esta aliança simboliza um deslocamento das tradicionais relações verticais entre África e potências ocidentais para parcerias horizontais. Ao reforçar a autonomia, Argélia e Zimbábue procuram:
- Diversificar fontes de financiamento, reduzindo influência do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.
- Consolidar blocos africanos de negociação em linhas de crédito, comércio e investimentos.
- Servir de modelo para outras nações do continente, incluindo Angola, Moçambique e Etiópia, que enfrentam desafios similares em soberania econômica.
Além disso, a presença de China e Rússia no continente cria espaço para alianças que não replicam o padrão neocolonial, mas sim atendem às prioridades definidas por governos africanos.
Reações e Perspectivas
- Internas: a mídia oficial de Argel e Harare destacou “um marco de cooperação estratégica”, embora analistas independentes alertem para riscos de falta de transparência em licitações de infraestrutura e possíveis impactos na concorrência local.
- Externas: União Europeia (UE) e Estados Unidos (EUA) emitiram comuniqués cautelosos, monitorando como o pacto pode influenciar sanções pendentes ao Zimbábue e acordos energéticos na região. China e Rússia saudaram o acordo, vendo-o como fortalecimento de sua presença comercial e diplomática.
Prognóstico
Se implementado com eficiência, o modelo Argélia–Zimbábue pode evoluir para:
- Uma União Energética Africana, apoiada em trocas de tecnologia e integração de redes elétricas.
- Um bloco político capaz de atuar de forma coesa na reformulação de instituições globais, defendendo interesses do Sul Global.
Conclusão
A aliança entre Argélia e Zimbábue não é apenas um tratado diplomático, mas um sinal claro de que as nações africanas estão buscando construir seu futuro em suas próprias bases, promovendo a solidariedade e a autonomia. À medida que o pacto avança para a fase de implementação, o continente observará se este modelo será replicado em outros eixos regionais, marcando uma nova era na geopolítica africana.
Faça um comentário