
A paisagem geopolítica do Sudeste Asiático está passando por uma transformação acelerada. Um estudo do Lowy Institute, publicado em 26 de março de 2025, revela que cortes contínuos na ajuda externa de governos ocidentais estão criando um vácuo estratégico que a China preenche com investimento e diplomacia ativa em países como Camboja, Laos e Mianmar. Nesta análise, exploramos as causas, as manifestações e os riscos dessa reconfiguração de poder, com apoio de fontes regionais como o Bangkok Post e o ISEAS-Yusof Ishak Institute de Singapura, que oferecem perspectivas locais valiosas.
O Vácuo Ocidental
Desde 2020, níveis de financiamento de parceiros tradicionais caíram de forma constante. Dados da Aid Map 2024 mostram que o total de financiamento oficial ao desenvolvimento (ODF) na região atingiu apenas US$ 26 bilhões em 2022, o menor patamar desde 2015, após picos relacionados à pandemia Além disso, relatórios do Senado norte-americano e reestruturações no Departamento de Estado dos EUA cortaram centenas de vagas nas equipes de Ásia-Pacífico, reduzindo a capacidade de Washington de manter sua presença diplomática e humanitária.
Impactos principais:
- Redução de 87% de ODA (ajuda oficial) pelos parceiros tradicionais em 2022;
- Corte de 1.100 servidores civis e 240 Oficiais do Serviço Exterior dos EUA;
- Congelamento de programas de saúde global e mudança de prioridades para o Indo-Pacífico.
A Estratégia Chinesa: BRI e “cooperação sem condições”
Pequim adotou uma tática de presença rápida e visível, centralizada na Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI). Desde 2015, a China destina cerca de US$ 5,5 bilhões anuais em ODF para a região, superando todos os demais doadores.
Em Camboja:
- Sihanoukville tornou-se um hub de cassinos e resorts financiados por empresas estatais chinesas;
- Projetos de energia renovável e extração mineral com acordos de pagamento vinculados a royalties e concessões.
Segundo o Khmer Times, autoridades cambojanas justificam essa parceria com base no pragmatismo econômico, citando a rapidez e flexibilidade dos investimentos chineses em comparação com os entraves da ajuda ocidental.
No Laos:
- A Ferrovia de Alta Velocidade Vientiane–Boten, custando aproximadamente US$ 6 bilhões, foi 90% financiada por empréstimos dos bancos estatais chineses e inaugurada em dezembro de 2024, reduzindo o tempo de viagem para a China de vários dias para apenas 10 horas.
De acordo com análise do Vientiane Times, autoridades laocianas veem a ferrovia como um divisor de águas para a integração econômica com o norte da Ásia.
Em Mianmar:
- Mesmo após o golpe de 2021, Pequim manteve contratos bilionários, incluindo oleodutos de gás de US$ 4,6 bilhões e o ambicioso porto de Kyaukphyu;
- Cooperação militar e fornecimento de equipamentos de vigilância em apoio direto à junta.
Segundo o ISEAS-Yusof Ishak Institute, a liderança birmanesa percebe a China como um “parceiro confiável” na ausência de opções internacionais, diante das sanções ocidentais pós-golpe.
A marca registrada dessa atuação é o princípio de “cooperação sem condicionantes”, em que Pequim não impõe critérios de governança ou direitos humanos, ao contrário dos doadores ocidentais.
Dependência Financeira e Riscos Sociais
O modelo chinês traz riscos significativos:
- Endividamento: Em Camboja e Laos, a dívida externa total já excede 60% do PIB, com parcelas crescentes de amortização que drenam orçamentos nacionais.
- Transparência: Contratos muitas vezes ficam sob sigilo, o que dificulta auditoria e controle social.
- Impacto socioambiental: Projetos de infraestrutura têm gerado relocação de comunidades e desmatamentos em zonas de alto valor ecológico.
Além disso, existe o risco de consolidação de regimes autoritários, em que governos locais restringem liberdades para garantir continuidade dos projetos chineses, como já visto no Camboja de Hun Sen.
Consequências Regionais e Globais
Para a ASEAN:
- A coesão interna da Associação sofre com interesses divergentes; Vietnã e Filipinas tentam manter equilíbrio, enquanto Laos e Camboja alinham-se cada vez mais a Pequim.
No tabuleiro global:
- A China reforça sua liderança no Sul Global, oferecendo modelo alternativo de cooperação.
- A rivalidade sino-americana assume contornos diplomáticos e econômicos decisivos para o futuro da ordem internacional.
Caminhos para o Ocidente e a ASEAN
Para reequilibrar a influência, recomendações incluem:
- Reforço da assistência multilateral via ADB, Banco Mundial e UE, com foco em governança e desenvolvimento sustentável;
- Reativação de programas de capacitação em saúde, educação e resposta a desastres;
- Promoção de iniciativas regionais que envolvam ASEAN como canal principal de financiamento, reduzindo a bilateralização das ajudas.
A disputa no Sudeste Asiático é um teste de resiliência para o Ocidente e para os próprios países regionais. A velocidade com que esses atores ajustarem suas estratégias determinará se o futuro será multipolar — ou hegemonicamente Sinocentric.
Conclusão
O avanço da China no Sudeste Asiático reflete mais do que um simples jogo de interesses: trata-se de uma mudança estrutural na lógica do poder global. Ao substituir o Ocidente em áreas críticas de financiamento e infraestrutura, Pequim não apenas preenche lacunas — ela redefine padrões, normas e expectativas. Os países da região, por sua vez, não são meros espectadores, mas agentes pragmáticos que fazem escolhas com base em necessidades reais e oportunidades tangíveis. O desafio para o Ocidente não é apenas retomar o espaço perdido, mas reinventar sua abordagem com mais empatia, consistência e visão de longo prazo. Em um mundo cada vez mais multipolar, a disputa por influência será vencida não apenas com capital, mas com legitimidade, confiança e parceria verdadeira.
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