Brasil se Retira da IHRA: Implicações Geopolíticas, Simbólicas e Morais

Presidente Lula discursa com microfone em evento sobre políticas energéticas, diante de painel com os dizeres "Combustível do Futuro".
Presidente Lula durante reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), onde anunciou medidas para ampliar o uso de biocombustíveis no Brasil. Foto: Cláudio Kbene / PR

A saída do país da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto reflete novo posicionamento na política externa brasileira em um momento de tensões internacionais

Em 24 de julho de 2025, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva oficializou a retirada do Brasil da International Holocaust Remembrance Alliance (IHRA), organização intergovernamental dedicada à preservação da memória do Holocausto e ao combate ao antissemitismo. A decisão, anunciada pelo Ministério das Relações Exteriores de Israel, desencadeou reações de governos aliados, entidades judaicas e analistas em todo o mundo.

O que é a IHRA e a participação brasileira

A IHRA foi criada em 1998 para fortalecer a educação, a pesquisa e a memória histórica sobre o Holocausto. Hoje, reúne 35 membros plenos e diversos observadores, incluindo o Brasil, que ingressou como membro observador em 9 de novembro de 2021.

A adesão brasileira significou compromisso com padrões internacionais de direitos humanos e com iniciativas de enfrentamento ao negacionismo e ao revisionismo histórico.

Cronologia dos eventos

DataEvento
9 nov. 2021Brasil torna-se observador da IHRA, reforçando compromisso contra o antissemitismo.
fev. 2024Presidente Lula compara operações de Israel em Gaza ao Holocausto, gerando forte repúdio internacional.
jan. 2024África do Sul protocola ação na Corte Internacional de Justiça (CIJ) contra Israel por suposto crime de genocídio.
23 jul. 2025Itamaraty anuncia fase final de intervenção brasileira na ação da CIJ, apoiada pela África do Sul.
24 jul. 2025Brasil se retira formalmente da IHRA; Israel classifica medida como “profunda falha moral”.

Reações internacionais e nacionais

  • Israel: O Ministério das Relações Exteriores considerou “imprudente e vergonhoso” abandonar o “consenso global contra o antissemitismo” enquanto se alia a ação jurídica contra Israel na CIJ.
  • Conib (Confederação Israelita do Brasil): Em nota, expressou preocupação de que a saída enfraqueça o combate interno ao antissemitismo. Líderes comunitários alertaram para riscos de retrocesso em políticas de enfrentamento ao discurso de ódio.
  • Alemanha: O Ministério das Relações Exteriores manifestou “decepção” com a retirada brasileira, destacando que o Holocausto representa um marco moral universal.
  • França: Fontes diplomáticas francesas indicaram que a decisão brasileira poderá dificultar futuras cooperações bilaterais na área de direitos humanos.
  • Estados Unidos: A Embaixada norte-americana no Brasil reiterou apoio à definição da IHRA e expressou “preocupação com sinais contraditórios da política externa brasileira”.
  • Itamaraty: Justificou a intervenção na CIJ com base na Convenção para Prevenção e Repressão do Genocídio (1948) e no “dever de proteger populações vulneráveis diante de plausíveis violações de direitos humanos”.

Impacto doméstico: memória e educação

Apesar da saída, museus e memoriais dedicados ao Holocausto seguem ativos:

  • Museu do Holocausto de Curitiba (2011)
  • Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto em São Paulo (2017)
  • Memorial do Holocausto do Rio de Janeiro (2023)

Na educação, o ensino sobre o Holocausto permanece obrigatório no 9º ano, conforme a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Vários estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, adotaram localmente a definição de antissemitismo da IHRA, demonstrando compromisso contínuo com a pauta.

Dimensões geopolíticas

A decisão faz parte de um movimento mais amplo de reorientação da política externa do governo Lula:

  1. Sul Global: aproximação de países do Hemisfério Sul, como África do Sul, em temas de justiça internacional.
  2. Autonomia estratégica: menor alinhamento automático com blocos ocidentais liderados por EUA e Europa.
  3. Soft Power: desafio a narrativas hegemônicas e tentativa de maior protagonismo em fóruns multilaterais.

No entanto, essa autonomia tem custos:

  • Isolamento em votações multilaterais: fontes diplomáticas apontam que Alemanha e França podem bloquear ou reduzir o apoio ao Brasil em instâncias como o Conselho de Direitos Humanos da ONU ou no G20.
  • Impacto em candidaturas internacionais: a candidatura brasileira a uma vaga rotativa no Conselho de Segurança da ONU em 2027 pode ser afetada, especialmente se houver articulações contrárias por parte de países-membros influentes.

Reflexões finais

A saída do Brasil da IHRA não equivale a negação do Holocausto, mas simboliza uma ruptura diplomática com implicações morais e estratégicas. O gesto sinaliza:

  • Reconfiguração da narrativa: o Brasil busca protagonismo no Sul Global, mesmo que em desacordo com parceiros históricos.
  • Tensão entre discurso e prática: compromisso interno com memória e educação contrasta com afastamento de organismo internacional dedicado à causa.

Em um cenário global polarizado, resta saber como o Brasil equilibrará sua autonomia externa e sua responsabilidade moral coletiva.

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