A Nova Direita na América do Sul: O Laboratório Milei e os Caminhos Possíveis da Região

Presidente argentino Javier Milei discursando no Fórum Econômico de Madri, 8 de junho de 2025
Presidente argentino Javier Milei durante discurso no Fórum Econômico de Madri, em 8 de junho de 2025./ chathamhouse

Em meio ao cenário político e econômico volátil da América do Sul, a Argentina de Javier Milei tornou-se um verdadeiro experimento político de “terapia de choque” fiscal que tem despertado atenção regional e internacional. As decisões radicais tomadas por seu governo não estão apenas redefinindo o futuro econômico argentino, mas também sinalizam uma possível reconfiguração ideológica no continente. Com eleições marcadas nos próximos anos em países-chave como Brasil, Chile, Colômbia e Peru, as reformas dolorosas de Milei e sua resiliência popular podem se tornar um modelo — ou um alerta — para seus vizinhos.

Argentina: O Laboratório de Milei

Desde sua posse, Javier Milei implementou uma política econômica apelidada de “economia da motosserra”, marcada por cortes drásticos nos gastos públicos, desmonte de programas estatais e um forte compromisso com o equilíbrio fiscal. A resposta inicial da economia apresenta sinais de recuperação: em junho de 2025, a inflação mensal foi de 1,6%, enquanto a inflação acumulada em 12 meses caiu para 39,4%, a menor taxa desde 2020 (Instituto Nacional de Estatística e Censos – INDEC) . Conforme as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), a inflação anual deve encerrar 2025 em torno de 35,9% e o PIB crescerá cerca de 5,5% no ano (FMI, Perspectivas Econômicas Mundiais, julho 2025) .

A consolidação fiscal de Milei é notável: no primeiro semestre de 2025 projetava‑se um superávit primário de 1,6% do PIB, acima da meta de 1,3% acordada com o FMI . Além disso, o Banco Central argentino interrompeu a financiación do Tesouro por meio de emissão monetária, contribuindo para a descompressão inflacionária e para um alívio significativo na percepção de risco do país.

Impactos sociais: custo e resistência

Apesar do progresso macroeconômico, o custo social das medidas é elevado. Dados do INDEC indicam que a pobreza, embora tenha recuado de 57,4% no início de 2024 para cerca de 38,9% no terceiro trimestre de 2024, ainda atinge mais de um terço da população, o que representa mais de 17 milhões de argentinos . Cortes nos orçamentos de saúde e educação resultaram em serviços mais precários e aumento das filas em hospitais públicos, segundo relatórios da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da UNESCO em 2025 . A taxa de desemprego, apesar de estabilizada em 8,5%, permanece alta em áreas rurais e periféricas.

Alguns relatos da imprensa local ilustram o impacto humano dessas reformas: em Buenos Aires, trabalhadores da saúde fizeram manifestações contra o fechamento de postos de atendimento, enquanto professores de escolas públicas denunciavam falta de recursos e salários defasados (La Nación, 2025).

Acordo com o FMI: Etapa Recente

Em abril de 2025, o FMI aprovou um programa de US$ 20 bilhões de duração de 48 meses — o 23º acordo da Argentina com o Fundo — liberando imediatamente US$ 12 bilhões e prevendo uma primeira revisão para junho de 2025 . No dia 24 de julho, o FMI anunciou ter alcançado um acordo técnico para destravar mais US$ 2 bilhões, destacando que “o programa teve um início sólido, com continuidade na desinflação, recuperação econômica e redução da pobreza” . As próximas liberações dependerão da manutenção da disciplina fiscal, do fortalecimento das reservas cambiais e do controle inflacionário.

Dois Fatores-Chave para o Continente

A experiência argentina revela dois temas centrais para a América do Sul:

  1. O alto custo da correção fiscal em economias com finanças públicas disfuncionais.
  2. O ressurgimento da direita como resposta ao esgotamento das soluções progressistas.

Em países como Chile e Peru, onde o endividamento público é menos crítico, uma eventual vitória da direita não requereria rupturas drásticas na política econômica. Já em Brasil e Colômbia, onde a dinâmica dívida/PIB segue insustentável (o chamado “problema do r menos g”), reformas profundas podem ser inevitáveis.

Brasil e Colômbia: As Próximas Fronteiras da Motosserra?

Tanto Brasil quanto Colômbia enfrentam taxas de juros reais superiores a 9%, enquanto o potencial de crescimento do PIB mal ultrapassa 3%. No Brasil, o rendimento dos títulos de 10 anos está em torno de 14%, com encargos financeiros consumindo cerca de 8% do PIB — valor próximo ao recorde de 2016 durante o governo Dilma Rousseff (Banco Central do Brasil, Relatório Anual 2024) . Na Colômbia, a recente suspensão do arcabouço fiscal levou a rebaixamentos de rating e à perda de acesso a linhas de crédito do FMI (Agência Moody’s, 2025) .

Ambas as nações têm seus orçamentos engessados por despesas obrigatórias (pessoal, previdência e transferências), limitando a margem para ajustes sem cortes profundos. Nesse contexto, só uma postura “Milei‑like” — com cortes bruscos e reformas estruturais — poderia restaurar o equilíbrio fiscal em médio prazo.

Aprendendo com o Passado: Ajustes Radicais na América Latina

A América Latina já enfrentou episódios de ajustes fiscais severos com resultados mistos. O Chile, na década de 1980, durante a ditadura de Pinochet, implementou reformas liberais drásticas que estabilizaram a economia, mas a um custo social significativo e com repressão política . O Brasil dos anos 1990, sob Fernando Henrique Cardoso, adotou o Plano Real e reformas fiscais importantes, que controlaram a inflação e abriram caminho para o crescimento sustentável, ainda que com tensões sociais e resistências internas .

Esses exemplos mostram que, embora reformas econômicas radicais possam ser eficazes para estabilizar e reequilibrar as finanças públicas, seu sucesso depende de fatores políticos, institucionais e sociais. Falhas na comunicação, insuficiência de redes de proteção social ou crises políticas podem comprometer a sustentabilidade dessas medidas.

Cenários Alternativos: O Que Pode Acontecer?

Sucesso com estabilidade social

Se os governos conseguirem combinar reformas fiscais duras com políticas sociais compensatórias eficientes, a confiança dos mercados e da população pode aumentar, consolidando um ciclo virtuoso de crescimento com menor inflação e endividamento sustentável.

Fracasso e crise social

Caso os cortes e ajustes aprofundem a pobreza e desigualdade sem redes de proteção adequadas, a pressão popular pode resultar em protestos massivos, paralisações e instabilidade política. Isso poderia levar à reversão das reformas e ao retorno do populismo econômico, com impactos negativos duradouros.

Alternância política e reveses eleitorais

Um desgaste do modelo “Milei-like” pode levar à vitória de forças políticas que prometam aumento dos gastos públicos, reabrindo o ciclo de déficits e inflação alta. A instabilidade fiscal seria agravada, dificultando o crescimento econômico e a atração de investimentos.

Conclusão

A Argentina de Javier Milei apresenta um experimento audacioso e controverso que está redesenhando as fronteiras econômicas e políticas da América do Sul. O equilíbrio delicado entre ajustes fiscais rigorosos e o impacto social dessas medidas será decisivo para o futuro não apenas da Argentina, mas também de seus vizinhos, que observam atentamente e podem se inspirar — ou se prevenir — diante do exemplo argentino.

O próximo ciclo eleitoral regional promete redefinir se o continente seguirá uma nova onda de direita radical, como representada por Milei, ou se retornará a modelos mais tradicionais de governança econômica, com os desafios e riscos inerentes a cada caminho.

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