
Em meio à escalada do conflito com a Rússia e às negociações de paz em Istambul, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky enfrenta desafios simultâneos: no campo de batalha, busca reforçar o exército com maior atratividade para recrutas; na arena diplomática, precisa restaurar a confiança da União Europeia após controvérsia em torno da lei anticorrupção.
Apoio Europeu para Aumento Salarial dos Soldados
- Contexto financeiro: Zelensky solicitou aos aliados europeus apoio direto para elevar os salários dos militares ucranianos, numa tentativa de atrair cerca de 30 000 recrutas por mês, meta ainda não atingida após mais de três anos de guerra.
- Déficit orçamentário: Segundo levantamento do Financial Times, a Ucrânia projeta um déficit de US$ 65 bilhões para 2026, incluindo US$ 6 bilhões destinados à produção doméstica de drones.
- Outros pedidos de armamentos: Além dos salários, Zelensky busca apoio para contratos de US$ 10–30 bilhões para drones ucranianos e o envio de sistemas de defesa aérea Patriot por parte dos aliados da OTAN.
- Situação em Pokrovsk: Há relatos de que as forças russas estariam efetuando seus avanços mais rápidos do ano na direção de Pokrovsk, embora análises independentes não confirmem avanços firmes no terreno.
Negociações de Paz em Istambul
- Retomada das conversas: Após mais de sete semanas, Rússia e Ucrânia reuniram-se em Istambul em 23 de julho de 2025, num encontro de apenas 40 minutos.
- Pontos de impasse: Mantêm-se divergências profundas sobre termos de cessar-fogo e garantias de segurança. O principal acordo alcançado foi em relação a novas trocas de prisioneiros — sem avanços em questões territoriais.
- Possibilidade de cúpula: A Ucrânia vem pressionando pela realização de uma reunião bilateral entre Zelensky e Putin, prevista para agosto, mas dependente de progresso nas negociações.
Crise Anticorrupção e Relações com a UE
- Retrocesso inicial: Uma lei aprovada na semana anterior havia transferido poderes da Agência Nacional de Combate à Corrupção (NABU) e do Escritório do Procurador Anticorrupção (SAPO) para o Procurador-Geral, gerando críticas de aliados europeus e protestos no país.
- Reação internacional: A Comissão Europeia e líderes como Ursula von der Leyen demonstraram preocupação com o enfraquecimento institucional, alertando para riscos ao desembolso de futuros fundos e ao processo de adesão da Ucrânia à UE.
- Nova proposta: Em 24 de julho, Zelensky aprovou um projeto de lei repondo a independência da NABU e do SAPO, revogando as restrições anteriores e incluindo até exigências de polígrafo para agentes de inteligência, numa tentativa de restabelecer credibilidade perante Bruxelas.
- Impacto político: A reversão buscou apaziguar tanto as ruas — com raros protestos de guerra — quanto os principais parceiros financeiros, preservando o compromisso ucraniano com a transparência e as reformas exigidas pela UE.
Contexto Histórico das Reformas Anticorrupção na Ucrânia
Desde a Revolução da Dignidade em 2014, a Ucrânia vem tentando consolidar reformas estruturais para combater a corrupção endêmica que permeava suas instituições, um dos grandes entraves ao desenvolvimento político e econômico do país. A criação da Agência Nacional de Combate à Corrupção (NABU) em 2015 e do Escritório do Procurador Anticorrupção (SAPO) em 2017 representou um marco no esforço para promover transparência e responsabilização, pilares para garantir a confiança dos parceiros internacionais.
A importância dessas reformas se acentuou com a candidatura da Ucrânia à União Europeia em 2022, quando Bruxelas deixou claro que o combate efetivo à corrupção e o fortalecimento das instituições independentes seriam pré-requisitos indispensáveis para avançar no processo de adesão. Por isso, qualquer retrocesso ou tentativa de enfraquecer órgãos anticorrupção é vista não apenas como um problema interno, mas como um risco direto à continuidade do apoio político e financeiro europeu.
Impacto Social Interno: Moral Militar e Confiança Popular
No front doméstico, a questão do aumento salarial aos soldados tem sido um fator relevante para o moral das tropas e o apoio popular à guerra. Muitos ucranianos veem a valorização dos militares como justa e necessária, especialmente diante dos sacrifícios feitos desde 2022. Contudo, a persistente crise orçamentária e as dificuldades econômicas — incluindo inflação e restrições financeiras — criam tensões na sociedade civil.
Paralelamente, a controvérsia política sobre a lei anticorrupção gerou inquietação entre os cidadãos que, além de lutar contra a agressão russa, cobram melhorias na governança e o fim da corrupção, que historicamente minou a confiança no governo. Protestos e debates públicos refletem essa demanda por transparência, mostrando que a estabilidade política é tão vital quanto a estabilidade militar para a resiliência do país.
Conclusão
A estratégia de Zelensky resume-se a um exercício de equilíbrio: garantir recursos urgentemente necessários para manter a defesa nacional e, ao mesmo tempo, assegurar que as instituições de combate à corrupção não percam sua autonomia, ponto-chave para a continuidade do apoio europeu e o avanço no caminho de integração à União Europeia. O desfecho desta equação será crucial para o futuro político, econômico e militar da Ucrânia, tanto no fim imediato da guerra quanto no pós-conflito.
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