
Em uma declaração que pode redefinir as relações entre a França e seus ex-territórios na África Ocidental, o ministro francês da Coesão dos Territórios, Thani Mohamed‑Soilihi, afirmou na sexta-feira, 25 de julho de 2025, que “os problemas de segurança na África Ocidental já não são mais uma preocupação da França”. A fala ocorreu em uma coletiva durante um encontro do G20 na África do Sul, destacando que Paris pretende manter relações não militares com suas ex-colônias. Para entender melhor o contexto dessa transição, veja também nosso artigo O Fim de uma Era: França Retira Tropas do Senegal e Redefine Relações com a África Ocidental, que analisa a retirada recente das tropas em Dakar.
Fim de uma era: da Françafrique ao desligamento militar
Desde os anos 1960, o sistema não oficial conhecido como Françafrique sustentou uma influência multissetorial da França em ex-protetorados como Mali, Burkina Faso e Níger. Essa lógica começou a se romper em 2013 com a Operação Serval, seguida pela Operação Barkhane (2014), visando conter grupos jihadistas no Sahel. Em 2022–2024, golpes militares em Mali, Burkina Faso e Níger provocaram a expulsão das tropas francesas, gerando um vácuo estratégico que tem sido ocupado por forças ligadas à Rússia, como remanescentes do grupo Wagner ou novas estruturas paramilitares com apoio do Kremlin.
A fala de Mohamed‑Soilihi: transição diplomática
Na coletiva de imprensa do G20, Thani Mohamed‑Soilihi ressaltou que a França continuará presente por meio de parcerias civis, não militares, com os países africanos com os quais mantém diálogo.
Fontes do Quai d’Orsay mencionam planejamentos para converter antigas bases militares em centros de cooperação civil e polos tecnológicos. Isso representa uma aposta clara na diplomacia “soft power” frente ao desgaste das operações militares.
Consequências regionais: fragmentação crescente
A saída francesa ocorreu paralelamente à derrocada institucional da CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), enfraquecida pela retirada de Mali, Burkina Faso e Níger, o que fragilizou os esforços de integração regional.
Foi criada também a Aliança dos Estados do Sahel (AES) — uma coalizão militar entre Mali, Burkina Faso e Níger com o objetivo de coordenar a segurança regional sem influência ocidental. No entanto, sem recursos logísticos ou financeiros robustos, a eficácia ainda é incerta.
Impacto geopolítico: Rússia e China ganham terreno
Com o esfacelamento da presença militar francesa, países da região têm estreitado os laços com a Rússia — seja por meio de paramilitares ligados aos remanescentes do Wagner ou novas formações com patrocínio do Kremlin. Em paralelo, a China tem ampliado investimentos em infraestrutura e crédito bilionário. Essas movimentações reposicionam a influência global na região.
O que dizem especialistas e a sociedade civil?
Analistas se dividem entre dois cenários:
- Pessimistas alertam para a perda de influência global da França e o risco de isolamento político.
- Realistas enxergam a transição como necessária — uma diplomacia civil mais eficaz e menos dispendiosa.
A ativista nigerina Halima Adama resumiu esse sentimento:
“A França pode sair, mas não virar as costas. Precisamos de parcerias que respeitem nossa autonomia, não negligência.”
Conclusão
A declaração de 25 de julho de 2025 marca um ponto de virada definitivo: o fim simbólico da era Françafrique e o início de uma redefinição nas relações entre Paris e os países da África Ocidental. Ao mesmo tempo, abre espaço para desafios: os Estados africanos precisarão enfrentar, sem tutelas externas, crises políticas e insegurança crescente. A geopolítica global da região se transforma — e exige resposta soberana e eficaz das nações africanas.
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