EUA matam líder sênior do Estado Islâmico em operação na Síria

Soldados de infantaria dos EUA disparam metralhadoras e granadas iluminadoras durante treinamento noturno no deserto, sob o comando do CENTCOM.
Soldados do Exército dos EUA realizam treinamento noturno com metralhadoras M240B e lançadores de granadas M320, na área de responsabilidade do CENTCOM. Imagem ilustrativa — não corresponde diretamente à operação em Al‑Bab, Síria.

Ação em Al‑Bab reafirma compromisso antiterror e expõe novos contornos no caos sírio

Na madrugada de sexta‑feira, 25 de julho de 2025, forças do Comando Central dos EUA (CENTCOM) realizaram um raid aéreo em Al‑Bab, na província de Aleppo, norte da Síria, que resultou na morte de Dhiya’ Zawba Muslih al‑Hardani, líder sênior do Estado Islâmico (ISIS), e de seus dois filhos adultos, Abdallah Dhiya al‑Hardani e Abd al‑Rahman Dhiya Zawba al‑Hardani, também afiliados ao grupo terrorista.

Perfil do alvo

Al‑Hardani era apontado pelo CENTCOM como um planejador estratégico do ISIS na região de Aleppo, responsável por articular células remanescentes e manter ligações com “filiais” do grupo no Iraque e no Sahel africano. Sua eliminação frustra planos de atentados e minara uma rede de comunicações que vinha reaglutinando combatentes dispersos após a perda do califado territorial em março de 2019.

Detalhes da operação

  • Método: foi empregada uma airdorp (lançamento de tropas via helicópteros) — a primeira desse tipo contra alvos do ISIS em 2025 — com apoio de aeronaves como o UH‑60 Black Hawk e o CH‑47 Chinook.
  • Parceiros locais: participou pessoal de tropas das Forças Democráticas Sírias (SDF), lideradas por curdos, e de unidades da Força de Segurança Geral do novo governo sírio.
  • Cordonamento: o Observatório Sírio de Direitos Humanos (SOHR) relatou cerco apertado ao local-alvo e forte presença aérea antes da investida.
  • Vítimas civis: três mulheres e três crianças presentes na residência não foram feridas, segundo o CENTCOM.

Reação oficial e contexto geopolítico

O general Michael Erik Kurilla, comandante do CENTCOM, comentou em sua conta oficial no X:

“Terroristas do ISIS não estão seguros onde dormem, onde operam e onde se escondem. Seguiremos implacáveis na perseguição, ao lado de nossos parceiros e aliados.”

O termo “novo governo sírio”, citado no comunicado americano, refere‑se à administração emergente em Damasco após a queda de Bashar al‑Assad, fruto de uma ofensiva rebelde em 2024. O reconhecimento tácito desse governo por Washington reflete o esforço de integrar as forças remanescentes do Exército sírio com as SDF — uma coalizão que ainda enfrenta desconfiança mútua e entraves sectários, sobretudo após confrontos recentes na província de Sweida.

Impacto estratégico no combate ao terrorismo

  1. Manutenção da pressão: demonstra que, apesar do colapso territorial, o ISIS segue alvo prioritário da coalizão internacional.
  2. Airdrops como tática: retoma o uso de inserções rápidas para atingir comandantes-chave, reduzindo exposição prolongada das tropas.
  3. Fragmentação síria: revela a importância de alianças flexíveis entre EUA, SDF e governo de Damasco, num tabuleiro regional cada vez mais complexo.

O que vem a seguir?

  • Retaliações do ISIS: o grupo já prometeu vingança em mensagens criptografadas, podendo intensificar ataques contra civis e posições curdas.
  • Negociações de paz: o avanço da coalizão sobre remanescentes do ISIS pode abrir brecha para novas rodadas de diálogo entre o governo sírio e facções curdas.
  • Risco de tensão com a Turquia:
    A crescente cooperação entre os Estados Unidos, as Forças Democráticas Sírias (SDF) e elementos do novo governo sírio pode reacender tensões diplomáticas com a Turquia, que considera as SDF uma ramificação direta do YPG, grupo curdo-sírio vinculado ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) — organização listada como terrorista por Ancara, EUA e União Europeia.
    Embora os Estados Unidos diferenciem as SDF do PKK, Ankara vê qualquer fortalecimento dos curdos na Síria como ameaça direta à sua segurança nacional, sobretudo na região fronteiriça de Manbij e Tel Rifaat.
    A operação em Al‑Bab, próxima à zona de influência turca, pode ser vista como uma provocação, caso haja continuidade de ações conjuntas entre Washington e milícias curdas. Isso adiciona uma camada de complexidade à já delicada geometria de alianças no norte da Síria.

Conclusão

A morte de Dhiya al‑Hardani representa um golpe tático importante contra o Estado Islâmico, mas está longe de significar o fim da ameaça jihadista na região.
A ação americana reforça a posição de Washington como ator de segurança internacional, mas também expõe as fraturas estratégicas no norte da Síria, onde coalizões improvisadas coexistem com rivalidades históricas.
À medida que o ISIS tenta se reagrupar em áreas remotas, o sucesso dessas operações cirúrgicas dependerá da continuidade da inteligência, da coordenação regional — e da habilidade diplomática para lidar com vizinhos sensíveis, como a Turquia.

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