
Em meio à crescente transição energética global e ao acirramento da competição entre potências pela segurança de cadeias de suprimento, o Brasil consolidou-se como ator-chave no fornecimento de minerais críticos — entre eles lítio, nióbio, terras raras, níquel, cobalto e grafite — essenciais para baterias elétricas, turbinas eólicas, eletrônicos de ponta e sistemas de defesa.
Panorama das Reservas Brasileiras
O Brasil detém cerca de 85% das reservas mundiais de nióbio e é um dos cinco maiores produtores de terras raras e lítio, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). Além disso, destaca-se no cobre, níquel e cobalto, insumos fundamentais para a transição ao modelo energético de baixo carbono e para a indústria de alta tecnologia.
No Vale do Jequitinhonha (MG), o lítio tem sido apontado por autoridades e especialistas como o “novo pré-sal” da energia verde, com projetos em rápida expansão financiados por capital nacional e internacional. O potencial da região inclui não apenas extração, mas também planos de industrialização local do lítio, incluindo fábricas de processamento e projetos de bateria.
Movimentação Diplomática e Financeira dos EUA
Em 24 de julho de 2025, o encarregado de negócios da Embaixada dos EUA em Brasília, Gabriel Escobar, reuniu-se com o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Raul Jungmann, para manifestar interesse em parcerias voltadas à extração e processamento de minerais críticos no Brasil. Paralelamente, a Development Finance Corporation (DFC) financiou projetos de mineração de cobalto e níquel no Piauí pela TechMet desde 2023, buscando reduzir a dependência americana da China na cadeia de baterias.
Em âmbito multilateral, os EUA lideram a Minerals Security Partnership, coalizão com Japão, Austrália e União Europeia, que aportou US$ 150 milhões no projeto de terras raras do Serra Verde Group em Minaçu (GO), uma das maiores fontes fora da Ásia.
O Domínio Chinês e o Contexto Global
Grande parte da movimentação norte-americana se explica pelo domínio esmagador da China na cadeia global de minerais estratégicos. Estima-se que a China refine cerca de 85% das terras raras globais e produza mais de 60% desses elementos, além de ser o principal exportador mundial de lítio processado. Isso confere à potência asiática um papel quase monopolista nas cadeias de suprimento da transição energética.
Diante disso, os EUA e seus aliados intensificam a busca por fornecedores alternativos. O Brasil surge como uma alternativa confiável — com estabilidade institucional, grande biodiversidade mineral e proximidade estratégica com os EUA.
Iniciativas Legislativas e Políticas no Brasil
O governo brasileiro anunciou para 2025 sua Política Nacional de Minerais Críticos: um decreto do Ministério de Minas e Energia, relatado pelo deputado Arnaldo Jardim (Projeto 2780/24), deve ser enviado à Casa Civil ainda em agosto, com objetivo de agilizar investimentos e licenciamento ambiental. A estratégia busca agregar valor localmente, com processamento nacional e inovação tecnológica.
Entretanto, preocupa o enfraquecimento de salvaguardas socioambientais: em julho de 2025, o Congresso aprovou um projeto que flexibiliza normas de proteção para mineração e infraestrutura, suscitando críticas de entidades ambientais e de outros países antes da COP30.
Reações e Desafios
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: “Aqui ninguém põe a mão. Os minérios são do povo brasileiro” — uma combinação de afirmação de soberania e pragmatismo para atrair investimentos sob regras definidas pelo Estado.
Por outro lado, pressões externas se intensificam: o governo dos EUA avalia aplicar tarifas sobre importações de minerais críticos, conforme decreto de 15 de abril de 2025 que abriu investigação para novas tarifas a fim de proteger a produção doméstica. Além disso, o Departamento de Interior dos EUA lançou em julho novas medidas para recuperar metais críticos de rejeitos de mineração, reforçando a estratégia de segurança de suprimentos.
Cenários Geopolíticos Futuramente Prováveis
- Parcerias condicionadas: Acordos com cláusulas de transferência tecnológica, meio ambiente e royalties, protegendo a soberania brasileira.
- Autossuficiência americana: Investimento em mineração de resíduos internos e expansão de acordos com Chile, Argentina e Austrália para diversificar fontes.
- Rivalidade EUA-China: O Brasil equilibra relações, atraindo capital de ambos os lados e evitando alinhamento exclusivo.
Conclusão
O interesse dos EUA nos minerais brasileiros reflete a urgência global em garantir cadeias de suprimentos resilientes e reduzir a dependência da China. O Brasil, com reservas únicas, está hoje no centro dessa disputa geoeconômica. O desafio será traduzir essa oportunidade em desenvolvimento sustentável e inovação tecnológica, preservando meio ambiente e soberania nacional.
A pergunta que se impõe é: o Brasil será apenas um fornecedor de matéria-prima — ou protagonista de uma nova geopolítica verde e tecnológica?
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