
O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, lançou um apelo importante para que a União Europeia (UE) amplie seu foco estratégico e político no continente africano, defendendo um “novo empenho” e a necessidade da UE “virar-se para fora” em prol de uma parceria mais equilibrada. Em entrevista ao Jornal Expresso em julho de 2025, Marcelo afirmou:
“A União Europeia não pode continuar centrada apenas nos seus próprios desafios internos. África é uma prioridade estratégica e, sem um novo compromisso forte, corremos o risco de perder influência num continente que será decisivo para o futuro global.”
Contexto geopolítico: por que a África importa para a Europa?
Crescimento demográfico e económico
A África é o continente com maior crescimento populacional do mundo; projeta-se que sua população ultrapasse 2,5 bilhões até 2050, tornando-se um vasto mercado consumidor e berço de uma força de trabalho jovem que pode impulsionar a inovação e o desenvolvimento económico mútuo.
Recursos naturais estratégicos
O continente alberga reservas significativas de recursos críticos — como terras raras, cobalto e lítio — vitais para tecnologias verdes, baterias e energias renováveis, além de importantes jazidas de petróleo e gás. A diversificação das cadeias de abastecimento europeias depende desse acesso sustentável.
Segurança, migração e estabilidade regional
A instabilidade política, conflitos locais e crises económicas em várias regiões africanas geram fluxos migratórios que impactam diretamente a segurança e a coesão interna da UE. Investir na estabilidade africana contribui para a prevenção de crises humanitárias e reforça a segurança europeia.
A visão de Marcelo Rebelo de Sousa: “virar-se para fora”
Marcelo Rebelo de Sousa enfatizou que a UE não pode manter uma perspectiva interna restrita nem conceber a cooperação africana apenas como ajuda humanitária. Para o presidente português, é urgente um “novo empenho” baseado em:
- Investimentos sustentáveis: financiamentos para infraestruturas, energias limpas, transporte e digitalização;
- Parcerias políticas verdadeiras: diálogo igualitário, respeito à soberania e fortalecimento da governança local;
- Cooperação em segurança: combate conjunto ao terrorismo, ao crime organizado e prevenção de conflitos.
Progresso concreto da UE em África: Global Gateway e além
Entre 2023 e 2025, a UE e seus Estados-membros adotaram 138 projetos “flagship” no âmbito do Global Gateway, com um pacote de investimentos estimado em €150 bilhões, destinados à recuperação e transformação inclusiva de África, abrangendo setores como energia verde, transportes, digitalização e saúde.
Em 20 de junho de 2025, no EU-Cabo Verde Global Gateway Investment Forum, foram selados importantes acordos de financiamento público e privado em energia renovável, turismo sustentável e infraestruturas portuárias, reforçando a cooperação bilateral.
No mesmo ano, o programa Horizon Europe lançou a Africa Initiative III, destinando mais de €128 milhões para fortalecer o diálogo científico e tecnológico entre UE e África, beneficiando centenas de organizações africanas.
Exemplos práticos de projetos da UE na África
- Energia Renovável na Etiópia: O projeto Scaling Solar, financiado pela UE, instalou mais de 100 MW de capacidade solar, beneficiando cerca de 1,5 milhão de pessoas e reduzindo emissões em 140 mil toneladas de CO₂ anualmente.
- Infraestrutura de Transportes no Senegal: A UE financiou a reabilitação da estrada entre Dakar e Thiès, fundamental para o comércio e exportações, reduzindo o tempo de viagem em 30%.
- Saúde em Moçambique: Com apoio do Horizon Europe, foram investidos €15 milhões em clínicas móveis e formação profissional para combate à malária, alcançando 500 mil pessoas em áreas rurais.
Perspectiva africana sobre a relação com a UE
O economista nigeriano Dr. Chinedu Okeke destaca:
“A África precisa de parceiros que a respeitem como iguais e ofereçam cooperação transparente e sustentável. A UE tem potencial, mas precisa acelerar ações e ouvir mais as vozes africanas.”
Para a ministra do Desenvolvimento da África do Sul, Naledi Pandor, presente no Fórum de Cooperação UE-África de 2025:
“É fundamental que a UE abandone a visão paternalista e construa parcerias baseadas em confiança e benefícios mútuos para enfrentar desafios comuns como mudança climática e segurança.”
Competição global pelo continente africano
China, EUA, Rússia e Turquia intensificam seus investimentos e influência em África. A China, especialmente, pela Iniciativa Cinturão e Rota, lidera com bilhões aplicados em infraestruturas e comércio. A UE precisa agir para não perder espaço, apostando em transparência, sustentabilidade e valores democráticos, com Portugal desempenhando papel estratégico pela sua história e relações culturais com a África.
Desafios e oportunidades para a UE
Desafios:
- Divergências internas sobre prioridades e recursos;
- Superar percepções coloniais e construir confiança mútua;
- Concorrência com ofertas rápidas e menos transparentes de outros atores.
Oportunidades:
- Acesso a um mercado crescente, estimado em 1,3 bilhão de consumidores até 2030;
- Cooperação tecnológica em energias renováveis e digitalização;
- Fortalecimento da segurança regional e prevenção de crises.
Investimentos e Projetos da UE em África: Dados Quantitativos (2023–2025)
Área | Investimento (€ bilhões) | Projetos Principais | Pessoas Beneficiadas (estimativa) |
---|
Energia | 45 | Scaling Solar (Etiópia), Solar no Senegal | 3,5 milhões |
Infraestrutura | 60 | Rodovias Senegal, Portos em Cabo Verde | 5 milhões |
Saúde | 25 | Clínicas móveis Moçambique, vacinação Mali | 2 milhões |
Digitalização | 20 | Redes de telecomunicações, centros digitais | 1,8 milhões |
Conclusão: perspectivar além das fronteiras
O apelo de Marcelo Rebelo de Sousa é um chamado para que a UE adote uma política externa mais ambiciosa, estratégica e dialogante com a África. Com iniciativas como o Global Gateway e Horizon Europe, a União Europeia tem caminhos promissores, mas a consolidação de uma parceria estratégica sustentável requer visão de longo prazo, recursos consistentes e o comprometimento de seus membros.
Para Portugal, país com laços históricos profundos, essa agenda representa a oportunidade de reforçar seu papel de ponte entre dois continentes e ajudar a redesenhar a geopolítica global do século XXI.
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