
Em 26 de julho de 2025, o presidente da República Centro-Africana (RCA), Faustin-Archange Touadéra, anunciou oficialmente sua candidatura a um terceiro mandato nas eleições presidenciais previstas para dezembro de 2025. O anúncio ocorre em um contexto de profundas transformações institucionais, persistente insegurança interna e crescente mobilização popular contra a influência de atores externos, especialmente os mercenários do Grupo Wagner. Este pleito não representa apenas uma disputa pelo poder, mas um momento crucial para definir os rumos da democracia, da soberania e do desenvolvimento nacional.
Contexto político e histórico
Touadéra foi eleito pela primeira vez em 2016, prometendo restabelecer a ordem após anos de conflito. Reeleito em 2020, seu segundo mandato foi marcado por tensões políticas e um ambiente eleitoral contestado, com parte da oposição boicotando o processo.
Em julho de 2023, a Constituição foi alterada para eliminar limites de mandato e estender a duração presidencial, permitindo que Touadéra concorra novamente. Sobre a mudança, o presidente declarou em entrevista à AFP:
“Esta decisão visa garantir a continuidade necessária para a consolidação da paz e do desenvolvimento da República Centro-Africana.”
Por sua vez, o líder opositor Martin Ziguélé criticou a medida:
“É uma ameaça direta à nossa jovem democracia. O povo merece escolher livremente seu destino sem imposições.”
Segurança e influência externa
Desde 2018, o governo de Touadéra tem contado com o apoio do Grupo Wagner, milícia privada russa que atua militarmente no país. Segundo relatório recente da Human Rights Watch,
“As forças do Wagner têm sido responsáveis por graves violações de direitos humanos, incluindo execuções extrajudiciais e torturas.”
O representante especial da ONU para a RCA, Amin Awad, afirmou:
“A presença militar estrangeira é um fator que complica ainda mais a estabilização, exigindo monitoramento rigoroso e diálogo internacional.”
Perspectiva da população
Uma pesquisa realizada em junho de 2025 pelo Instituto Centro-Africano de Estudos Sociais apontou que cerca de 58% dos entrevistados manifestam preocupação com a influência russa no país, enquanto 42% apoiam a permanência de Touadéra, citando a necessidade de estabilidade.
Relatos de moradores de Bangui revelam sentimentos mistos:
“Queremos paz, mas não a um custo que comprometa nossa soberania,” disse Amina, uma professora local. Já o comerciante Joseph declarou:
“Touadéra tem sido uma figura estável, e esperamos que continue para manter a ordem.”
Aspecto econômico: recursos naturais e impacto social
A economia da RCA é fortemente dependente da exploração de recursos naturais, principalmente diamantes, ouro e madeira. O Grupo Wagner controla parte significativa da extração ilegal, segundo relatório do Global Initiative Against Transnational Organized Crime de 2024.
Essa exploração tem efeitos ambíguos:
- Por um lado, gera receita para o governo e para grupos armados;
- Por outro, causa degradação ambiental e deslocamento forçado de comunidades locais, que perdem acesso às suas terras tradicionais.
O economista centro-africano Dr. Emmanuel Nzapa observa:
“A riqueza mineral é uma maldição quando não é regulada adequadamente, perpetuando desigualdades e conflitos.”
Comparações regionais: desafios na África Central
A situação da RCA espelha desafios enfrentados por países vizinhos, como o Chade e o Sudão do Sul, onde a fragilidade institucional, a presença de grupos armados e a intervenção de potências externas dificultam a construção da paz.
No Chade, o governo enfrenta rebeliões armadas similares e lida com a influência de grupos militares estrangeiros, enquanto no Sudão do Sul a disputa pelo poder continua minando o processo de reconciliação nacional.
Segundo relatório da União Africana de 2025,
“A estabilidade da África Central depende da cooperação regional e da redução da influência de atores externos que alimentam conflitos locais.”
Conclusão
A candidatura de Faustin-Archange Touadéra a um terceiro mandato representa um momento decisivo para a República Centro-Africana, que se encontra no limiar entre a continuidade de um governo marcado pela estabilidade precária e a possibilidade de uma renovação política capaz de enfrentar os múltiplos desafios do país. O equilíbrio entre soberania, democracia, justiça social e desenvolvimento sustentável será o principal teste para a nação e seus parceiros internacionais nos próximos anos.
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