Estados Unidos reforçam presença militar na África: foco em Angola sinaliza nova fase estratégica do AFRICOM

Militares e representantes civis do AFRICOM posam para foto oficial em frente a símbolo dos EUA, com bandeiras dos Estados Unidos e Namíbia ao fundo.
Comandantes e oficiais do Comando Militar dos EUA para a África (AFRICOM) posam em evento oficial, reforçando cooperação militar e alianças estratégicas na região.

O Comando Militar dos Estados Unidos para a África (AFRICOM) reforçou nesta semana sua atuação no continente, com ênfase na expansão da cooperação militar com Angola. A iniciativa, que se insere num contexto de concorrência global por influência na África, reforça o compromisso americano com a estabilidade regional – mas também levanta debates sobre soberania e interesses estratégicos.

O que é o AFRICOM?

Criado em 2007, o Comando dos EUA para a África (AFRICOM) tem sede em Stuttgart, na Alemanha, e coordena operações militares no continente africano. Suas principais áreas de atuação são:

  • Contraterrorismo e monitoramento de grupos extremistas;
  • Capacitação e modernização das forças locais;
  • Ajuda humanitária e respostas a crises de saúde, como ebola ou COVID‑19;
  • Segurança marítima e combate à pirataria;
  • Treinamento em missões de paz e manutenção de estabilidade.

Apesar dos avanços, o comando já enfrentou críticas por supostos impactos na soberania nacional e riscos de militarização excessiva em países parceiros.

Por que Angola?

Angola reúne fatores estratégicos que atraem o interesse dos EUA:

  1. Reservas energéticas: é o 3.º maior produtor de petróleo da África Subsaariana, com vastos campos de gás e minerais críticos.
  2. Posição geográfica: faz fronteira com áreas instáveis (República Democrática do Congo, zona do Sahel) e possui acesso ao Atlântico Sul.
  3. Estabilidade institucional relativa: conta com uma das forças armadas mais bem estruturadas da região.
  4. Diplomacia diversificada: mantém relações com EUA, China, Rússia e parceiros regionais.

Além do petróleo, Angola desponta como potencial fornecedor de minerais estratégicos como terras raras e cobalto, essenciais para baterias, semicondutores e outras tecnologias da transição energética — setores nos quais os EUA buscam reduzir a dependência da China.

Objetivos estratégicos dos EUA

A intensificação da presença americana em Angola visa:

  • Conter influências de China e Rússia, que expandem investimentos e parcerias militares no continente.
  • Prevenir a expansão de grupos extremistas, como ISWAP e Al‑Shabaab.
  • Proteger rotas marítimas e recursos naturais vitais para cadeias globais de fornecimento.
  • Fortalecer capacidades regionais em segurança cibernética, logística e inteligência.

Acordos e engajamentos recentes

Visita do comandante AFRICOM a Luanda (maio/2025)

Entre 17 e 18 de maio, o General Stephen Townsend — comandante do AFRICOM — esteve em Luanda, onde se reuniu com o Presidente João Lourenço e autoridades do Ministério da Defesa. Tratou de:

  • Troca de inteligência e avaliação conjunta de ameaças.
  • Treinamentos em operações especiais, simulações e integração com forças expedicionárias dos EUA.
  • Apoio a missões de paz da ONU e União Africana.
  • Fortalecimento da profissionalização do corpo de sargentos angolanos.

African Maritime Forces Summit (junho/2025)

Em 25 de junho, no encontro em Pointe aux Piments (Mauritius), o U.S. Marine Corps Forces Europe and Africa e as Forças Armadas de Angola debateram cooperação em:

  • Segurança marítima no Golfo da Guiné.
  • Planejamento anfíbio e logística de crise.
  • Compartilhamento de práticas de combate ao tráfico e pirataria.

Possível apoio à Base Naval do Namibe

Fontes próximas ao setor de defesa sugerem que a Base Naval do Namibe, localizada no sul de Angola, poderia futuramente receber apoio logístico americano para missões de patrulha no Atlântico Sul, embora não haja confirmação oficial até o momento.

Próxima coletiva digital (28/julho/2025)

O Departamento de Estado anunciou briefing online com líderes do AFRICOM para detalhar “avanços na segurança e parcerias em Angola e Namíbia”. A transmissão será em 28 de julho.

Reações e críticas

  • Governo Angolano: elogia o “salto qualitativo” na capacitação militar e vê a parceria como alavanca para o desenvolvimento regional.
  • Oposição e ONGs: Associação Mãos Livres pede mais transparência e teme transformações de Angola em alvo geopolítico de potências rivais.
  • Especialistas: destacam o risco de uma “corrida militar” que obrigue vizinhos (Namíbia, Moçambique) a buscar contrapartidas com outras potências.
  • Organismos regionais: até o momento, a União Africana (UA) e a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) não emitiram posicionamento oficial sobre a intensificação da presença militar dos EUA em Angola.

Impactos para a África Subsaariana

A expansão do AFRICOM em Angola pode:

  • Pressionar blocos regionais (SADC, UA) a posicionamentos claros sobre tropas estrangeiras.
  • Estimular modernização de marinhas locais, reforçando a vigilância no Atlântico Sul.
  • Reconfigurar alianças em segurança cibernética e antiterrorismo.

Conclusão

O reposicionamento do AFRICOM em Angola ultrapassa meras operações táticas. É parte de uma estratégia ampla para reafirmar a presença americana na África, em competição direta com os interesses da China e da Rússia. O desafio será equilibrar respeito à soberania e benefícios mútuos, evitando que Angola se transforme em “tabuleiro” de influências externas.

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