
Moçambique, nação do sudeste africano com mais de 30 milhões de habitantes, deu um passo estratégico rumo à transformação digital e à inclusão socioeconômica ao lançar, em 28 de abril de 2025, um piloto de conectividade móvel rural em Xinavane, província de Maputo. A iniciativa, fruto do Projeto “Internet for All by 2030”, é uma parceria entre o governo — representado pela Autoridade Reguladora Nacional das Comunicações (INCM) — e o setor privado, envolvendo BDQ Mobile, Movitel, Vanu e Spacecom. O objetivo é expandir cobertura de redes móveis a preços acessíveis, atingindo comunidades historicamente desconectadas.
Contexto Geopolítico e Econômico
A expansão da telefonia móvel em Moçambique tem implicações que vão além do acesso à internet: é um movimento estratégico com repercussões geopolíticas. Em um continente marcado por desigualdades de conectividade, o acesso ampliado fortalece a posição de Moçambique como ator relevante na economia digital africana e global. Além disso, a colaboração público-privada ressalta o papel dos governos africanos em atrair investimentos e expertise sem abrir mão da regulação sobre infraestruturas críticas.
Estrutura da Parceria e Empresas Envolvidas
- INCM (Instituto Nacional das Comunicações): órgão regulador que coordena licenciamento e marco regulatório.
- BDQ Mobile: especialista em soluções de estação base de baixo custo.
- Movitel: principal operadora local, com ampla experiência em expansão de redes.
- Vanu: fornece tecnologia de radiofusão móvel flexível para áreas remotas.
- Spacecom: parceira em soluções via satélite, ampliando o alcance das antenas móveis.
O modelo público-privado permite reduzir riscos e custos para o Estado, ao mesmo tempo em que garante expertise técnica e capacidade de investimento do setor privado.
Alcance e Benefícios Esperados
- Cobertura: cada estação com antena satelital alcança raio de aproximadamente 50 km, beneficiando cerca de 15.000 pessoas por site.
- Zonas-alvo: áreas rurais de baixo atrativo para grandes investimentos, como Xinavane e Pessene (Moamba).
- Inclusão Digital: facilitação de ensino à distância, telemedicina, acesso a informação e serviços financeiros.
- Desenvolvimento Econômico: apoio a agricultores com dados em tempo real sobre clima e preços, e impulso a micro e pequenas empresas locais.
Citações Oficiais e Perspectivas dos Envolvidos
Em 30 de abril de 2025, o Ministro dos Transportes e Comunicações de Moçambique, Carlos Mesquita, destacou a importância do projeto para o país:
“Este piloto representa um marco decisivo na inclusão digital de Moçambique, especialmente para as comunidades rurais que há muito foram deixadas para trás. Através da parceria público-privada, avançamos na construção de uma infraestrutura que conecta pessoas e promove o desenvolvimento sustentável.”
O CEO da Movitel, Rui Marques, acrescentou:
“Nosso compromisso é levar telecomunicações de qualidade e acessíveis a todos os cantos do país. A tecnologia flexível e inovadora que estamos implementando permite cobrir áreas remotas de forma econômica e eficiente.”
Impacto Social: Exemplos Concretos
Na vila de Xinavane, onde o piloto foi lançado, agricultores locais relataram benefícios imediatos. Maria João, produtora de mandioca, afirmou:
“Antes, não tinha acesso a informações do clima nem dos preços do mercado. Agora, com o celular, posso planejar melhor a colheita e vender por um preço justo.”
Na escola primária local, o acesso à internet permitiu a adoção de aulas híbridas, conectando alunos a conteúdos digitais e professores remotos, o que melhorou significativamente o rendimento escolar, segundo a diretora da instituição, Helena Simão.
Comparativo Regional: Moçambique no Contexto Africano
Moçambique integra um grupo crescente de países africanos que investem na expansão da telefonia móvel rural para diminuir a exclusão digital. Segundo o relatório da União Internacional de Telecomunicações (UIT) de 2024, cerca de 60% da população africana tem acesso à internet móvel, mas a cobertura em áreas rurais ainda é inferior a 20% em muitos países.
Países vizinhos, como a Tanzânia, também implementam projetos similares de conectividade rural, enquanto nações como Quênia e Ruanda lideram a região com infraestruturas digitais mais avançadas, servindo de referência para a ampliação dos serviços móveis em Moçambique.
Desafios Técnicos e Soluções Tecnológicas
Para superar a dificuldade de cobrir regiões com baixa densidade populacional e infraestrutura precária, o projeto utiliza estações base móveis com tecnologia Open Radio Access Network (Open RAN), que permite montar redes flexíveis e de baixo custo, adaptadas ao terreno e à demanda.
Além disso, a parceria com a Spacecom viabiliza o uso de conectividade via satélite, essencial para garantir o acesso em localidades sem acesso à fibra óptica ou rede elétrica estável. Essa combinação de tecnologias torna possível levar serviços móveis de qualidade mesmo em ambientes desafiadores.
Desafios e Riscos
- Infraestrutura Física: logística de instalação e manutenção em áreas de difícil acesso.
- Sustentabilidade Financeira: necessidade de tarifas acessíveis sem comprometer a viabilidade das operadoras.
- Segurança e Soberania Digital: regulação rigorosa para proteger dados e evitar dependência excessiva de fornecedores estrangeiros.
- Marco Regulatório: atualização de leis e licenças para estimular concorrência e inovação.
Impacto Geopolítico Regional
Moçambique assume papel de hub tecnológico na África Austral, atraindo investimentos e fortalecendo laços estratégicos com vizinhos. A ampliação da conectividade pode acelerar a integração de cadeias de valor regionais e fortalecer a segurança digital coletiva.
Conclusão e Próximos Passos
O piloto iniciado em abril de 2025 é apenas o primeiro de vários previstos até 2030. Monitoramento contínuo, avaliação de desempenho e expansão gradativa serão essenciais para reproduzir o modelo em outras regiões. Com essa estratégia, Moçambique avança rumo à meta de conectar todas as comunidades e consolidar sua posição na economia digital global.
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