
A Faixa de Gaza vive, desde 2023, uma das piores crises humanitárias da atualidade, resultado de um conflito prolongado que tem devastado a região e causado milhares de vítimas civis. O bloqueio imposto por Israel, somado aos constantes confrontos entre grupos armados e forças militares, agravou severamente o acesso da população a alimentos, água potável e medicamentos básicos. Em meio a essa tragédia, o recente anúncio de pausas táticas diárias para permitir a entrada de ajuda humanitária surge como um esforço emergencial para aliviar o sofrimento da população, mas levanta dúvidas sobre a eficácia e a sustentabilidade dessa medida diante de uma situação tão complexa e delicada.
O que são as pausas táticas?
Em 27 de julho de 2025, o Exército de Defesa de Israel (IDF) anunciou a implementação de “pausas táticas” diárias de 10 horas em três áreas de Gaza — Al‑Mawasi, Deir al‑Balah e Gaza City — com vistas a viabilizar o ingresso seguro de assistência humanitária. A suspensão das operações militares ocorre entre 10h e 20h (07h–17h GMT), até novo aviso. Além disso, foram estabelecidas rotas seguras para comboios de alimentos e medicamentos, autorizadas das 6h às 23h, visando maximizar a capacidade de entrega.
Logística e atores envolvidos
- ONU e WFP: O Programa Mundial de Alimentos (WFP) alertou que, desde maio, menos de 8% dos seus caminhões conseguiram atravessar os pontos de controle devido a atrasos de até 20 horas e furtos durante o trânsito. O diretor de Emergências do WFP, Ross Smith, apelou por aprovações mais céleres das autoridades israelenses para “evitar saques e acelerar as operações”.
- Países vizinhos: Jordânia e Emirados Árabes Unidos realizaram, em conjunto, o primeiro lançamento conjunto de ajuda aérea em meses — 25 toneladas de suprimentos — embora agências de socorro ressaltem que operações aéreas não substituem entregas terrestres em larga escala.
- Organizações regionais: O Crescente‑Vermelho Egípcio despachou mais de 100 caminhões, transportando cerca de 1.200 toneladas métricas de alimentos para o sul de Gaza. Contudo, relatos de saques em Khan Younis apontam riscos de desvio de carga antes da distribuição.
A crise alimentar e estatísticas de desnutrição
Apesar das medidas, a fome avança de forma alarmante:
- Mortes por desnutrição: O Ministério da Saúde de Gaza registrou 133 óbitos relacionados à desnutrição desde o início da guerra em outubro de 2023, incluindo 87 crianças.
- Novas vítimas: Em 26 de julho, seis pessoas morreram nas últimas 24 horas por falta de alimentos; entre elas, a bebê de cinco meses Zainab Abu Haleeb, cujo caso mobilizou apelo internacional.
- População vulnerável: Estima‑se que 2,2 milhões de gazatíes aprox. estejam em situação de insegurança alimentar grave, com crianças e idosos sendo os mais afetados.
Desafios operacionais e segurança
Refletindo a complexidade do ambiente de guerra:
- Tiroteios e incidentes: Organizações humanitárias denunciam disparos em zonas de distribuição, causando pelo menos 17 mortes de pessoas que aguardavam a chegada de caminhões de socorro.
- Riscos das airdrops: Vários gazatíes ficaram feridos por caixas de alimentos lançadas do ar, o que levanta dúvidas sobre a eficácia e segurança dessa modalidade.
Iniciativas de infraestrutura
Além das entregas de emergência, Israel anunciou o início de um projeto para conectar uma nova usina dessalinizadora no Egito à rede elétrica de Gaza, beneficiando cerca de 600.000 habitantes da faixa costeira. A obra, financiada pelos EAU, visa restaurar o fornecimento de água potável em meio ao colapso das infraestruturas locais.
Contexto político e pressões internacionais
A medida das pausas táticas ocorre sob intensa pressão global:
- Negociações em impasse: As conversas indiretas de cessar‑fogo e troca de reféns em Doha estão paralisadas, sem perspectiva de acordo.
- Apelos diplomáticos: Mais de 25 países, incluindo Reino Unido, França e Canadá, exigem acesso humanitário irrestrito e ameaçam rever reconhecimento diplomático caso a situação piore.
- Posicionamento dos EUA: Durante visita à Escócia, o presidente Donald Trump declarou que Israel deve decidir seus próximos passos em Gaza, reafirmando apoio à ajuda humanitária, mas sem detalhar novas iniciativas.
Caminhos para uma solução mais duradoura
Especialistas recomendam:
- Extensão e flexibilização das pausas para permitir a chegada de 600 caminhões diários — meta prevista em propostas de cessar‑fogo anteriores.
- Proteção internacional a comboios e pontos de distribuição, com escolta da ONU ou de países neutros.
- Reforço em infraestrutura de água, energia e saúde, para reduzir dependência de ajuda externa a médio prazo.
- Retomada de negociações políticas com participação ativa de EUA, UE, Liga Árabe e ONU, visando um cessar‑fogo estável e um plano de reconstrução.
Conclusão
As pausas táticas representam um esforço pontual para mitigar a crise humanitária em Gaza, mas permanecem insuficientes diante da gravidade da fome e do colapso estrutural. A comunidade internacional deve ampliar e coordenar suas ações para transformar essas janelas de alívio em um processo continuado de assistência e, finalmente, de paz duradoura.
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