
Desde segunda-feira, 28 de julho de 2025, a capital angolana tem sido palco de protestos motivados pelo aumento de cerca de 33% no preço do diesel, uma medida adotada pelo governo para reduzir subsídios em meio a pressões do Fundo Monetário Internacional (FMI) para equilibrar as finanças públicas. Essa decisão gerou forte impacto no custo de vida da população, especialmente entre motoristas de táxis-caixas e trabalhadores informais, que convocaram a mobilização inicial. Com o passar dos dias, os protestos se espalharam por outras províncias, como Benguela e Huíla, evoluindo para confrontos violentos, saques e vandalismo.
Contexto e Motivo do Protesto
O reajuste do preço do diesel, anunciado em 27 de julho, faz parte da política do governo de reduzir subsídios que representavam quase 4% do PIB em 2024, conforme dados do Ministério das Finanças angolano. Para muitos angolanos, a medida significou um golpe severo no orçamento doméstico, ampliando o custo dos transportes e produtos essenciais.
Em resposta à crescente mobilização contra o aumento das tarifas de táxi e do gasóleo, o governo angolano endureceu sua postura e mobilizou a polícia para conter os protestos (Leia mais sobre o endurecimento do governo e mobilização policial).
O contexto econômico é agravado por uma inflação anual que ultrapassa 15% e um desemprego estimado em cerca de 30%, segundo o Instituto Nacional de Estatística de Angola (INEA). Esses fatores criaram um ambiente propício para insatisfação popular e protestos.
Cronologia e Escalada da Violência
- 28 de julho (segunda-feira): Início dos protestos em Luanda, liderados pelas associações de táxis-caixas.
- 29 de julho: Confrontos entre manifestantes e forças de segurança, com relatos de uso de balas reais, gás lacrimogêneo e repressão violenta.
- 30 de julho: O governo confirma 22 mortos, 197 feridos e mais de 1.200 detidos, além de saques e danos a estabelecimentos comerciais.
Vozes da Rua: Relatos dos Manifestantes
Maria José, taxista em Luanda, relata:
“Nunca pensei que as coisas chegassem a esse ponto. O aumento do diesel é insuportável, e a polícia veio com armas de fogo contra a gente, pessoas que só querem trabalhar.”.
João Pedro, morador da Vila Alice, descreve:
“Vi amigos baleados sem nenhuma provocação, tiros à queima-roupa. Estamos assustados, mas também determinados a lutar por mudanças.”
Alegações de Execuções Sumárias e Resposta de Direitos Humanos
Diversas organizações internacionais, como a Human Rights Watch e Anistia Internacional, denunciaram o uso excessivo da força e execuções sumárias de civis desarmados pelas forças de segurança angolanas. Elas exigem a instauração de uma comissão independente para investigar as circunstâncias das mortes e responsabilizar os autores.
O Silêncio do Governo e Reação Oficial
O presidente João Lourenço manteve-se em silêncio por três dias seguidos, enquanto a Presidência divulgava apenas notas breves que justificavam a atuação policial como necessária para manter a ordem pública. Esse silêncio agravou a desconfiança da população, que exige posicionamento claro e medidas para conter a crise.
Aspectos Históricos: Protestos em Angola
Embora os protestos de 2025 tenham um gatilho imediato, eles refletem uma tendência crescente de mobilizações sociais em Angola nas últimas décadas. Desde o fim da guerra civil em 2002, o país experimentou estabilidade relativa, mas a insatisfação popular com a desigualdade, corrupção e falta de liberdade política tem resultado em manifestações periódicas, como as grandes greves de 2018 e os protestos estudantis de 2022.
Impactos Políticos e Sociais
- No país: A crise evidenciou o desgaste do MPLA, partido no poder desde 1975, e a necessidade urgente de reformas políticas e sociais para responder às demandas da população.
- No exterior: A União Africana e a ONU manifestaram preocupação, pedindo diálogo e respeito aos direitos humanos. O FMI monitora a situação, visto que a política econômica do país depende de negociações com organismos internacionais.
Caminhos para a Estabilidade
Para evitar a escalada da crise, são recomendadas ações como:
- Instaurar investigações independentes sobre as denúncias de execuções sumárias;
- Promover diálogo entre governo, sindicatos e sociedade civil;
- Adotar políticas sociais que protejam as famílias mais vulneráveis do impacto do aumento dos preços.
Conclusão
Os protestos em Luanda de 2025 não são um evento isolado, mas um ponto crítico de uma crise econômica e social que se intensifica em Angola. O silêncio presidencial diante da violência e o uso desproporcional da força ameaçam a estabilidade do país e desafiam os direitos democráticos. O futuro de Angola dependerá da capacidade do governo de ouvir a voz do povo e implementar reformas que garantam justiça, paz e inclusão social.
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