
Em meio ao agravamento do conflito israelo-palestino e à crise humanitária em Gaza, a Itália reafirmou, ao lado da Alemanha, sua recusa em reconhecer unilateralmente o Estado da Palestina neste momento. Essa posição, endossada por declarações oficiais do governo de Roma e de Berlim, reacende o debate sobre o papel da União Europeia na mediação do conflito e suscitou críticas de setores que defendem um gesto simbólico de reconhecimento como meio de pressionar por negociações de paz.
A Declaração Conjunta: Princípios e Realpolitik
Em pronunciamento conjunto, o governo italiano, representado pela Primeira-Ministra Giorgia Meloni, e o governo alemão, por meio do chanceler Friedrich Merz, deixaram claro que o reconhecimento unilateral “não favorece a retomada das negociações” e poderia “radicalizar ainda mais as posições de ambas as partes”.
Além disso, no adendo à posição alemã, o ministro das Relações Exteriores Johann Wadephul ressaltou que, embora a Alemanha apoie o reconhecimento da Palestina como etapa final do processo, “esse processo deve começar agora” para garantir paz e segurança a ambos os povos.
As Justificativas Formais
- Princípio dos Acordos de Oslo (1993): a Itália continua a defender a solução de dois Estados baseada em negociações diretas.
- Equilíbrio Estratégico: Roma mantém forte cooperação com Israel em campos como defesa, tecnologia e economia, evitando ações que possam ser interpretadas como hostis.
- Alinhamento com a UE: apesar de países como Espanha e Irlanda já reconhecerem a Palestina, a maior parte da União mantém posição de condicionamento ao avanço das negociações de paz.
A Voz do Executivo e a Diplomacia Presidencial
Embora o cargo de presidente seja de natureza mais cerimonial, Sergio Mattarella tem feito apelos contundentes. Em 30 de julho, durante evento no Palácio do Quirinal, afirmou que “a situação em Gaza está se tornando, dia após dia, dramaticamente mais séria e intolerável” e cobrou um “cessar-fogo efetivo”, alertando que os bombardeios com graves vítimas civis “não podem mais ser vistos como não intencionais”.
Contrapontos e Críticas Internas
A posição de Meloni enfrenta resistência de:
- Partidos de esquerda (PD, Movimento 5 Estrelas): consideram que postergar o reconhecimento perpetua o status quo e legitima a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia.
- Organizações de direitos humanos: pressionam o governo a demonstrar coerência entre discurso humanitário e ação política, alegando que o gesto simbólico poderia criar novo ímpeto para as negociações.
O Panorama Europeu: Tendências de Reconhecimento
Desde maio de 2024, vários países europeus reconheceram oficialmente a Palestina:
País | Data de Reconhecimento | Condição |
---|---|---|
Espanha | Maio/2024 | Gesto político parlamentar |
Irlanda | Maio/2024 | Executivo |
Noruega | Junho/2024 | Executivo |
França | Anunciado para setembro/2025 | Condicionado à Assembleia Geral da ONU |
Reino Unido* | Previsto para setembro/2025 | Condicionado à resposta de Israel |
* O Reino Unido declarou que reconhecerá o Estado palestino na próxima Assembleia Geral da ONU, a menos que Israel atenda a condições humanitárias mínimas e aceite dialogar diretamente.
A Itália, no entanto, permanece alinhada à linha diplomática cautelosa de Alemanha, Países Baixos e República Tcheca.
A Posição da ONU: Reconhecimento como Caminho para a Paz
O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, tem reiterado, inclusive em pronunciamentos recentes em julho de 2025, que a criação de um Estado palestino é essencial para a paz duradoura. Segundo Guterres, o “reconhecimento internacional da Palestina não é apenas um gesto simbólico, mas um passo necessário rumo à equidade entre os povos e ao fim de décadas de ocupação, deslocamentos e violência”.
A posição da ONU contrasta com a hesitação de potências ocidentais como a Itália e a Alemanha, que condicionam esse reconhecimento a negociações futuras — mesmo com o processo de paz praticamente estagnado desde 2014. Para analistas da própria ONU, essa abordagem conservadora pode minar o papel da comunidade internacional como mediadora neutra.
Possíveis Cenários e Implicações
- Isolamento na UE: se mais membros reconhecerem a Palestina antes de um acordo, Roma pode se ver fora do consenso europeu.
- Repercussão Eleitoral: o tema tem potencial de mobilizar a opinião pública nas eleições parlamentares de 2026, especialmente no eleitorado jovem e progressista.
- Relação com Aliados Tradicionais: qualquer mudança abrupta pode afetar os laços com Israel e, indiretamente, com os Estados Unidos.
- Pressão Humanitária: organizações sediadas na Itália, como o Programa Alimentar Mundial, intensificarão pressões para ações concretas de apoio aos civis palestinos.
Conclusão
A recusa italiana em reconhecer a Palestina neste momento reflete um equilíbrio delicado entre pragmatismo estratégico e apelos humanitários. O contraste entre a posição da ONU e a hesitação das grandes potências europeias levanta uma questão central: manter a neutralidade significa promover a paz — ou postergar a justiça?
As próximas semanas, especialmente com a aproximação da sessão da Assembleia Geral da ONU em setembro, serão decisivas para avaliar se Roma conseguirá manter sua posição de “ponte” diplomática ou se cederá às forças que clamam por um gesto simbólico de reconhecimento como forma de pressionar o fim do conflito.
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