
Em 31 de julho de 2025, o novo governo transitório da Síria realizou sua primeira visita oficial a Moscou, marcando um ponto de inflexão na relação bilateral estabelecida durante anos de apoio militar russo ao regime de Bashar al-Assad. Sob a liderança do presidente interino Ahmed al-Sharaa e do ministro das Relações Exteriores Asaad al-Shibani, o objetivo da delegação foi renovar alianças estratégicas para enfrentar desafios econômicos, de reconstrução e pressões diplomáticas internas.
Contexto Político e Econômico da Síria
Após o avanço das forças rebeldes em dezembro de 2024, que resultou na queda de Assad e em sua partida para um asilo em solo russo, a Síria adotou uma Constituição provisória em março de 2025, instituindo um governo de transição com mandato de cinco anos. A economia permanece fragilizada por sanções internacionais, inflação crescente e destruição de infraestrutura em áreas urbanas, como Damasco e Aleppo.
A reconstrução nacional — incluindo habitação, energia e transportes — requer investimentos estimados em dezenas de bilhões de dólares, segundo o Ministério da Reconstrução de Damasco. Ao mesmo tempo, o país busca restaurar suas relações comerciais, especialmente no setor de petróleo e gás, onde a produção caiu mais de 60% desde 2011.
Principais Pontos da Visita a Moscou
Encontro com Putin e Lavrov
O ministro Asaad al-Shibani se reuniu com o presidente Vladimir Putin e o chanceler Sergey Lavrov em encontros separados no Kremlin e no Ministério das Relações Exteriores russo. Durante as conversas, Lavrov convidou formalmente o presidente Ahmed al-Sharaa para participar da primeira Cúpula Rússia–Liga Árabe, marcada para 15 de outubro em Moscou, como parte de um esforço para reengajar diplomatas árabes no processo de reconstrução pós-guerra.
Al-Shibani destacou a abertura de comitês bilaterais para revisão e atualização de acordos anteriores, propondo um cronograma para renegociar contratos de exploração de gás em instalações controladas pela Rússia em Tartus e Khmeimim.
Apoio à Reconstrução e Infraestrutura
Em resposta, Putin anunciou a intenção de destinar fundos do Fundo Russo de Reconstrução Internacional para projetos de restauração de redes elétricas e rodovias costeiras, além de priorizar a participação de empresas russas na reconstrução de portos sírios. A expectativa é formalizar memorandos de entendimento até o final de setembro.
Cooperação Militar e Segurança
Apesar da mudança de governo, a Rússia reafirmou a manutenção de suas bases militares em Tartus (naval) e Khmeimim (aérea), condicionando o apoio continuado à segurança síria à renovação de acordos de aluguel por um período de 25 anos. Moscou também ofereceu treinamento adicional para as forças locais no combate a células remanescentes de grupos extremistas.
Alinhamento Diplomático e Sanções
O chanceler Lavrov reiterou o uso do poder de veto russo no Conselho de Segurança da ONU para mitigar sanções mais severas contra Damasco, destacando a disposição de Moscou em apoiar iniciativas sírias para participar de organismos internacionais e levantar barreiras comerciais.
Aspectos Econômicos Detalhados: Investimentos, Setores Prioritários e Cronogramas
A seguir apresentamos um quadro resumido dos investimentos e áreas que serão foco da cooperação Rússia–Síria, com o cronograma preliminar dos projetos de reconstrução e modernização:
Setor | Investimento Previsto (US$ bilhões) | Principais Atividades | Cronograma Estimado |
---|---|---|---|
Infraestrutura Urbana | 12 | Reconstrução de habitações, saneamento, eletricidade | 2025 – 2028 |
Energia | 8 | Reparação de usinas elétricas, modernização de redes de distribuição | 2025 – 2027 |
Transporte | 5 | Restauração de rodovias costeiras, modernização portuária (Tartus) | 2025 – 2029 |
Petróleo e Gás | 7 | Exploração e revitalização de campos de gás, reativação de oleodutos | 2025 – 2028 |
Segurança e Defesa | 3 | Treinamento militar, modernização das forças locais | 2025 – 2026 |
Educação e Saúde | 2 | Reconstrução de escolas e hospitais, programas sociais | 2026 – 2029 |
Total estimado de investimento bilateral: aproximadamente US$ 37 bilhões ao longo dos próximos 4 a 5 anos.
Análise Geopolítica
A visita reforça o papel de Moscou como mediador no Oriente Médio, oferecendo um contrapeso ao envolvimento dos EUA, Turquia e Irã na região. Ao convidar a Síria para a Cúpula Rússia–Liga Árabe, a Rússia busca restaurar sua imagem como parceiro indispensável na reconstrução e garantir influência política sobre futuros acordos multilaterais.
Para Damasco, a aliança com Moscou é vital não apenas para obter recursos imediatos, mas também para validar o governo transitório perante aliados árabes e aspirar ao levantamento de sanções ocidentais, que chegam a proibir transações financeiras com bancos sírios.
Desafios e Perspectivas Futuras
- Capacidade Financeira Russa: O orçamento russo enfrenta restrições devido a sanções ocidentais e contingências internas, o que pode limitar o montante destinado à Síria.
- Fragilidade da Segurança: A presença militar russa ainda depende da estabilidade local, que é vulnerável a grupos insurgentes e tensões sectárias.
- Reações da Comunidade Internacional: A posição de Moscou pode atrair críticas de países ocidentais e de organizações de direitos humanos, que cobram responsabilidade pelos abusos ocorridos durante o conflito.
Entretanto, os compromissos de Moscou colocam a Síria em uma trajetória de reconstrução mais acelerada, com potencial para reverter o isolamento diplomático e combater a crise humanitária.
Conclusão
A visita do novo governo sírio a Moscou, sob a liderança de Ahmed al-Sharaa e Asaad al-Shibani, simboliza um novo capítulo na relação Rússia–Síria. Entre acordos para reconstrução, segurança e alívio de sanções, Moscou reafirma seu papel central no Levante. O sucesso dessa cooperação dependerá da capacidade russa de cumprir promessas financeiras e do governo sírio de implementar reformas internas que garantam transparência e estabilidade.
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