Brasil e EUA: Negociação sob Pressão em Meio a Ameaça de Tarifas

Geraldo Alckmin fala à imprensa sobre negociações comerciais com os Estados Unidos
VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL

O Brasil vive um momento crítico em sua relação comercial com os Estados Unidos. Com a iminente imposição de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, marcada para entrar em vigor em 1º de agosto, o governo brasileiro acelera suas tentativas diplomáticas para evitar o que poderia se tornar uma crise bilateral de proporções históricas.

O estopim para a atual tensão foi a decisão do governo dos EUA, sob a liderança do presidente Donald Trump, de abrir uma investigação com base na Seção 301 da legislação comercial americana. As acusações envolvem práticas consideradas discriminatórias por parte do Brasil nos setores de economia digital, biocombustíveis, propriedade intelectual, combate à corrupção e meio ambiente. Como resultado, Washington anunciou a possibilidade de aplicar tarifas elevadas a uma série de produtos brasileiros, incluindo café, suco de laranja, carne bovina, produtos de aço e aeronaves da Embraer.

Resposta brasileira: diplomacia com firmeza

Em resposta, o governo Lula formou um comitê interministerial liderado pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin. O grupo inclui representantes dos Ministérios das Relações Exteriores, Fazenda, Agricultura, Meio Ambiente e da Casa Civil, além de empresários de setores diretamente afetados. O objetivo é buscar soluções concretas antes do prazo fatal.

Alckmin afirmou que o governo pretende “convencer os EUA de que a imposição de tarifas será prejudicial a ambos os lados”, ressaltando o princípio de reciprocidade e o histórico de cooperação entre as duas economias. Uma das alternativas na mesa é a negociação de cotas de exportação, permitindo um volume predeterminado de produtos brasileiros sem incidência de tarifas, solução que já havia sido cogitada em 2024.

Articulação internacional e pressão doméstica

O Itamaraty também tem intensificado contatos com o setor produtivo norte-americano, buscando apoio de empresários dos EUA que seriam impactados pelo encarecimento de insumos brasileiros. A estratégia inclui destacar os impactos negativos que as tarifas trarão ao consumidor americano, especialmente em segmentos como alimentação e aviação regional.

No plano interno, o governo enfrenta pressão de vários setores. A Embraer, por exemplo, alerta para a perda de competitividade em relação à rival norte-americana Boeing. O setor de carnes teme represálias em cadeias logísticas já fragilizadas. Além disso, uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg revelou que 51,2% da população apoia medidas de retaliação caso não haja acordo, enquanto 47,9% demonstram confiança no sucesso da diplomacia.

Caminhos e riscos

Apesar do esforço diplomático, o tempo joga contra o Brasil. As tarifas estão programadas para entrar em vigor em menos de duas semanas, o que limita a margem de manobra. Além disso, o histórico da política comercial de Donald Trump indica baixa disposição para concessões unilaterais, ainda mais em um contexto de fortalecimento de sua agenda protecionista com vistas à reeleição.

Por outro lado, a aplicação da chamada Lei da Reciprocidade, defendida por Lula como último recurso, poderia gerar uma escalada de medidas protecionistas, com prejuízos para ambos os países. A medida permitiria que o Brasil aplicasse tarifas na mesma proporção sobre produtos norte-americanos, o que afetaria setores como tecnologia, máquinas e produtos químicos.

Impactos potenciais para a economia brasileira

O eventual tarifário norte-americano atinge setores estratégicos da economia brasileira. O agronegócio, por exemplo, responde por cerca de 25% do PIB brasileiro e tem nos EUA um de seus principais mercados. A indústria aeronáutica também corre riscos, uma vez que parte significativa da exportação da Embraer é destinada a empresas americanas.

O Brasil também poderia sofrer efeitos indiretos no cenário cambial, com possível desvalorização do real e impacto negativo em investimentos estrangeiros. Já o setor empresarial teme retração na geração de empregos e desaceleração do comércio exterior.

Cenário aberto e expectativa crescente

A negociação entre Brasil e Estados Unidos se tornou um dos principais focos da política externa brasileira neste segundo semestre de 2025. As próximas semanas serão decisivas para determinar se prevalecerá o diálogo diplomático ou se o embate tarifário ganhará contornos de guerra comercial.

Em atualização recente, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o Brasil e os EUA “estão construindo um entendimento” e que há “conversas em curso para evitar danos irreversíveis à relação bilateral”. Haddad também reforçou que a diplomacia brasileira está agindo com foco e agilidade.

No xadrez da diplomacia internacional, o Brasil tenta mover suas peças com cautela, mas com assertividade. Resta saber se os Estados Unidos estão dispostos a fazer o mesmo. A contagem regressiva já começou.

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