
O Produto Interno Bruto (PIB) da China registrou um crescimento de 5,2% no segundo trimestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior, superando levemente as expectativas do mercado, que previam uma expansão de 5,1%. No comparativo trimestral, a economia chinesa cresceu 1,1%, também acima da previsão de 0,9%. Os dados, divulgados nesta segunda-feira pelo Escritório Nacional de Estatísticas da China (NBS), refletem uma recuperação liderada pela produção industrial e exportações, mas também revelam fragilidades contínuas no consumo doméstico, no investimento privado e no setor imobiliário.
Indústria e exportações como pilares da recuperação
A principal força motriz por trás do crescimento acima do esperado foi a produção industrial, que avançou 6,3% em junho, impulsionada especialmente pelos setores de equipamentos elétricos, semicondutores e veículos elétricos. Além disso, as exportações cresceram 3,5% no trimestre, favorecidas por uma taxa de câmbio desvalorizada e políticas de estímulo fiscal voltadas para grandes empresas exportadoras.
“O desempenho industrial chinês demonstra resiliência notável diante de um ambiente global ainda marcado por incertezas”, afirma Wei Chen, economista-chefe da CICC (China International Capital Corporation). “Contudo, essa recuperação ainda é desigual e altamente dependente de segmentos estatais e subsídios.”
Dados recentes apontam que a China retomou parcialmente a exportação de chips de inteligência artificial com a flexibilização de restrições dos EUA, o que impulsionou empresas tecnológicas e ajudou a sustentar a recuperação industrial no segundo trimestre.
Consumo e investimento seguem fracos
Apesar do desempenho positivo do setor produtivo, o consumo doméstico continua sendo um ponto fraco da economia chinesa. As vendas no varejo cresceram apenas 1,9% em junho, uma desaceleração em relação aos 2,5% registrados em maio. A confiança do consumidor permanece baixa, reflexo do desemprego jovem elevado (superior a 15%), da estagnação dos salários no setor privado e da cautela em relação a surtos sazonais de doenças respiratórias.
O investimento em ativos fixos, outro indicador importante de saúde econômica, avançou apenas 2,4% no primeiro semestre, em comparação com 3,8% no mesmo período de 2024. O investimento privado, que responde por mais de 60% do total, recuou 1,1%, sinalizando cautela do setor empresarial diante de incertezas regulatórias e políticas. Em contraste, o investimento estatal aumentou 7,3%, reforçando a dependência do setor público como motor da atividade econômica.
Setor imobiliário: epicentro da fragilidade
O setor imobiliário continua sendo a principal âncora negativa para a economia chinesa. Os dados oficiais mostram uma retração de 11,2% nas vendas de imóveis no primeiro semestre de 2025, refletindo o colapso da confiança dos compradores, a falência de grandes incorporadoras como Evergrande e Country Garden, e o excesso de estoque em cidades médias e pequenas.
A construção de novos empreendimentos caiu 9,6% no período, enquanto os preços de imóveis residenciais em áreas urbanas recuaram 3,8% na média nacional. Pequim tenta conter os efeitos sistêmicos desse declínio, oferecendo linhas de crédito a governos locais e reduzindo juros para hipotecas. Recentemente, autoridades também anunciaram planos para que bancos públicos comprem projetos inacabados para garantir sua conclusão — uma medida vista como tentativa de proteger compradores e restaurar a confiança no setor.
China em comparação global
Para contextualizar o desempenho chinês, veja a comparação com outras grandes economias no segundo trimestre de 2025:
País | Crescimento do PIB (2T 2025) |
---|---|
China | 5,2% |
EUA | 2,1% (estimado) |
Zona do Euro | 0,8% (estimado) |
Índia | 6,7% |
Japão | 1,2% |
A tabela mostra que, apesar dos desafios internos, a China continua com desempenho superior à média global, embora atrás da Índia em termos de ritmo de expansão.
Expectativas do setor produtivo
Indicadores de sentimento como o PMI (Purchasing Managers’ Index) para a indústria de transformação ficou em 50,3 em junho, levemente acima do limiar de 50 que separa expansão de contração. O PMI de serviços, por outro lado, recuou para 49,7, sinalizando desaquecimento no setor terciário. Isso reflete o desequilíbrio entre a recuperação industrial e a fraqueza da demanda interna.
Possíveis caminhos para a política econômica
Analistas destacam que, para manter o crescimento sustentável, Pequim precisará:
- Estimular o consumo através de transferências diretas para famílias e redução de impostos.
- Ampliar a segurança social, aumentando a confiança do consumidor.
- Promover reformas estruturais que reduzam a dependência do setor imobiliário.
- Melhorar o ambiente regulatório para empresas privadas e startups.
- Incentivar inovação e produtividade através de políticas industriais mais transparentes.
Perspectivas e riscos
Com o desempenho do segundo trimestre, o crescimento acumulado no primeiro semestre de 2025 atinge 5,3%, o que deixa o governo relativamente confortável em relação à meta oficial de crescimento anual de “cerca de 5%”. No entanto, economistas alertam que manter esse ritmo dependerá de uma aceleração no segundo semestre — algo que exige não apenas estímulos fiscais, mas reformas estruturais.
“A China está alcançando seus objetivos de crescimento no papel, mas a qualidade desse crescimento é questionável”, observa Alicia García-Herrero, economista-sênior do think tank Bruegel. “A economia continua dependente de investimentos estatais e exportações, enquanto o consumo doméstico — crucial para a transição a um modelo mais sustentável — permanece estagnado.”
Além disso, os riscos geopolíticos aumentam as incertezas. Tensões com os EUA e Europa em torno de exportações industriais e tecnologias críticas, aliadas à crescente pressão para reduzir a dependência da China nas cadeias globais, podem limitar o espaço para novos avanços nas exportações. Internamente, o envelhecimento da população e a queda nas taxas de natalidade também colocam pressão sobre o potencial de crescimento no longo prazo.
Um fator novo que se soma aos riscos é a expectativa de eleições nos EUA em novembro, o que pode reacender disputas tarifárias e afetar diretamente os fluxos comerciais entre os países. Além disso, há aumento de tensões no Mar do Sul da China e com Taiwan, que afetam a percepção de risco entre investidores internacionais.
Conclusão
O crescimento de 5,2% no segundo trimestre representa uma vitória simbólica para Pequim, num momento em que o governo busca reafirmar a confiança dos investidores internacionais e conter a instabilidade social. No entanto, o panorama geral revela uma economia ainda vulnerável, desequilibrada e excessivamente dependente de estímulos públicos. Para sustentar o crescimento a longo prazo, a China precisará resolver os entraves estruturais no consumo, reestruturar seu setor imobiliário e promover reformas que aumentem a produtividade e a confiança no setor privado.
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