Europa pode escapar de nova crise de gás neste inverno

Imagem panorâmica do terminal de GNL em Świnoujście, mostrando tanques de armazenamento, construções auxiliares e guindastes de construção, com céu azul ao fundo.
Panorâmica do terminal de GNL em Świnoujście, na Polônia, uma das principais instalações de importação de gás natural liquefeito da Europa.

Estoques cheios, preços em queda e maior diversificação de fornecedores reforçam a posição da União Europeia. Mas dilemas estratégicos e pressões políticas internas mostram que a segurança energética segue no centro da geopolítica europeia.

O trauma da crise de 2022

A invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, desencadeou a pior crise energética da Europa em décadas. Naquele momento, cerca de 40% do gás consumido no continente vinha da Rússia, e a interrupção brusca desse fornecimento expôs a dependência estrutural da União Europeia.

Os preços dispararam: o mercado de referência TTF ultrapassou 300 euros por megawatt-hora, patamar recorde que pressionou famílias, indústrias e orçamentos públicos. Governos tiveram de adotar medidas emergenciais, como subsídios diretos, estímulo à redução de consumo e busca frenética por fornecedores alternativos.

Esse episódio marcou um divisor de águas: energia deixou de ser apenas um tema econômico para se tornar um pilar de segurança e estratégia continental.

Estoques cheios e preços estabilizados

Três anos depois, o cenário é mais favorável. Em agosto de 2025, os reservatórios de gás da UE estão acima de 90% da capacidade, um nível considerado confortável antes da chegada do inverno.

O preço de referência TTF, que chegou ao pico histórico em 2022, agora permanece abaixo de 30 €/MWh, próximo dos níveis anteriores à guerra. Essa queda reflete não apenas os altos estoques, mas também a consolidação de novos fornecedores, especialmente de gás natural liquefeito (GNL) vindo dos Estados Unidos, Catar e Nigéria, além do reforço de importações da Noruega e da Argélia.

A infraestrutura também avançou: novos terminais de GNL na Alemanha e nos Países Baixos ampliaram a capacidade de receber e redistribuir gás, aumentando a resiliência do bloco.

Vozes políticas em destaque

Autoridades europeias celebram esse progresso. “O armazenamento de gás protegeu os cidadãos — por isso é crucial continuar usando essa ferramenta”, afirmou Dan Jørgensen, comissário europeu de Energia, ao defender a extensão do regulamento que obriga os países a manter níveis mínimos de reserva.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reafirmou o compromisso com o plano REPowerEU, que prevê eliminar totalmente a dependência de combustíveis fósseis russos até 2027.

No plano nacional, a ministra polonesa da Indústria, Marzena Czarnecka, classificou o acordo europeu sobre armazenamento de gás como uma “vitória pela soberania e pela resiliência energética”, em clara alusão ao valor político do tema para além das questões técnicas.

Energia, eleições e pressões internas

Se em Bruxelas a narrativa é de vitória, nos países-membros a realidade é mais complexa. O preço da energia continua sendo um dos principais temas de disputa política.

Na Noruega, o encarecimento do fornecimento já ameaça a coalizão governista às vésperas das eleições de 2025, enquanto em outros países os subsídios energéticos ainda pesam nos cofres públicos.

Do lado empresarial, há críticas crescentes às políticas climáticas da União. A Exxon acusou recentemente Bruxelas de adotar uma regulação “excessiva” que aumenta os custos de energia e ameaça a competitividade industrial. Esse tipo de pressão pode se refletir em resistência social às metas de descarbonização.

O gás como arma geopolítica

Para a Rússia, a energia continua sendo um instrumento de poder. O corte de fornecimento buscou fragilizar a coesão ocidental e reduzir o apoio militar e econômico à Ucrânia.

A resposta europeia, contudo, mostrou resiliência: diversificação de fornecedores, investimentos em infraestrutura e medidas de solidariedade entre países-membros. A superação da crise de 2022 reforçou a percepção de que a segurança energética é inseparável da segurança geopolítica.

Conclusão: vitória momentânea, dilema permanente

A Europa entra no inverno de 2025 em condições muito mais seguras do que nos anos anteriores. Mas o alívio atual não elimina os desafios de longo prazo:

  • Dependência crescente de GNL em um mercado global competitivo.
  • Pressões políticas internas diante dos custos energéticos.
  • Necessidade de acelerar a transição para renováveis sem minar a competitividade industrial.

O gás, antes tratado apenas como insumo econômico, consolidou-se como peça central da geopolítica europeia.

A grande questão é: conseguirá a Europa transformar a vulnerabilidade exposta em 2022 em um motor de integração e autonomia estratégica, ou seguirá exposta a choques externos e divisões internas? O inverno que se aproxima pode não ser de crise, mas servirá como termômetro da capacidade europeia de aprender com o passado e planejar o futuro.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*